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Um ano depois

Percebi que posso ser amado, odiado ou ignorado exatamente pelas mesmas ideias

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2017 | 02h00

Faz um ano que iniciei a coluna dominical no Estadão. Manifestei meus medos naquele primeiro texto: eu teria assunto? Bem, durei até aqui, o que não quer dizer que eu tenha sido bom, já que durabilidade não é sinal de importância. Stonehenge não é a obra mais notável da arquitetura ocidental, tampouco Jericó o melhor lugar para se viver. São, apenas, obras duráveis.

Aprendi a escrever em cinco mil toques, contenção expressiva à loquacidade acadêmica. Progredi na tarefa de corrigir meu próprio texto, habilidade na qual cresci. É muito fácil para um professor corrigir texto alheio. A opacidade da nossa produção é algo sem explicação. 

Desenvolvi a capacidade de dosar informações e ironias. Também percebi que as palavras podem ferir e que pessoas públicas devem pensar que a honestidade intelectual é um valor desejável, porém grosseria é um defeito. Lição complexa: percebi que posso ser amado, odiado ou ignorado exatamente pelas mesmas ideias. Isso parece inevitável. 

Vou destacar algo notável sobre o Estadão: nunca houve a mais vaga tentativa de interferência. Escrever é muito solitário. Vivo em absoluta liberdade de escrita e de pensamento, aqui. Dessa forma, todas as bobagens são minhas, todo o excesso nasce de Leandro Karnal e toda irrelevância só conduz um culpado ao banco dos réus. O Estadão é um ambiente de respeito autoral extremo e com bons debates sobre regência verbal com os revisores. 

Sou livre e ocupo um espaço importante cedido por um organismo mais do que centenário. Sou autônomo e me tornei um formador de opinião. Isso não é dito por vaidade (ainda que eu seja vaidoso), entretanto pelo peso da responsabilidade. Eu a sinto. 

Apresento ideias que desagradam a algumas pessoas e outras que encontram receptividade ampla. Recebo classificações e insultos em torno da cansativa bipolaridade nacional: petralha/coxinha ou comunista/fascista. Não respondo, em geral, porque pertencem ao direito sagrado de opinião, meu e dos críticos. Apenas reclamo de ter imputadas, a mim, ideias que não formulei. Gostaria de ser odiado ou amado pelo que eu disse, exclusivamente. Tenho descoberto que interpretação de textos por grandes públicos apresenta nichos exóticos de surdez seletiva. Como afirmam alguns teóricos da comunicação (Derrida ou Umberto Eco), a tradução intralingual reflete muito mais o leitor-receptor do que o emissor ausente. A crônica enviada ao jornal não mais me pertence. Atomizado, pulverizado, dissecado e, por vezes, mal citado em excertos, aproxima-se da clássica metáfora do travesseiro de plumas aberto em dia de vento forte.

Em uma entrevista inaugural para a empreitada, disse algo que gostaria de reafirmar. Demandei um patamar de compreensão que abarcasse a ideia: quando eu dissesse que sou contra o massacre ocorrido em Ruanda, nunca quer dizer que apoiasse o de armênios. Ao falar dos horrores sofridos por judeus, jamais implica esquecer sofrimentos na Faixa de Gaza. Se falo mal do Chile de Pinochet, não quer dizer que eu apoie a Cuba dos Castros. Não preciso enunciar todas as ditaduras e todos os massacres para aparentar imparcialidade. Sou contra todo genocídio, qualquer espécie de racismo, todas as violências de esquerda e de direita e abomino ditadores de todos os tipos. O público leitor está sempre atento ao sentido conotativo e denotativo dos textos, mas há certa histeria interpretativa hoje. 

No século 18, havia um mistério na Europa: discutir o sexo do cavaleiro de Éon (Charles de Beaumont). A questão empolgava as elites ilustradas dos dois lados do canal. Seria a personagem homem ou mulher? Duzentos anos depois, vemos que o debate falava muito mais dos debatedores do que do Chevalier d’Éon. Aliás, isso se repete quase sempre. O drama dos momentos extremados, como o Caso Dreyfuss na França da Belle Époque, é que a gramática fica reduzida a duas palavras essencialistas e pouco inteligentes: contra ou a favor. 

Um ano depois, tenho meus leitores fiéis, inclusive meus haters de estimação. Aliás, de todos os tipos de fidelidade, a do ódio é sempre a mais notável. Quando vejo que gente muito melhor do que eu, como Luis Fernando Verissimo, também tem seus detratores fidelíssimos, consolo-me. Uma vez, ao ler uma mensagem extraordinariamente agressiva, dei-me ao trabalho de olhar as redes sociais do indivíduo. Ao ver o campo das suas afinidades, quem seguia e em quem confiava, fiquei tranquilo e feliz. Estaria preocupado se aquela pessoa me amasse. Certas raivas são elogiosas. 

Um ano depois, sinto-me feliz por muitas coisas. Um dia, em um restaurante de São Paulo, uma moça se aproximou de soslaio e tirou da bolsa um pedaço de jornal recortado e inserido em um plástico. Era minha crônica sobre amizade. Disse que tinha mudado o que ela sentia das amizades e refeito seu círculo íntimo. Agradeceu e afirmou que a garrafa que eu tinha lançado ao mar havia chegado à ilha dela e ajudado muito. Afastou-se, sutil como chegara. São pequenas cenas que iluminam nossa consciência. É uma honra falar com tanta gente. 

Agradeço à direção do Estadão. Acima de tudo, agradeço a você, leitor/leitora, que guarda um trecho, envia a um amigo, concorda ou discorda, comenta ou guarda no escrínio da memória. Muitos dos leitores sinceros mandam críticas boas que me ajudam muito. Também agradeço a você que me odeia sistematicamente, porém não cessa de ler com a constância que só o ódio verdadeiro, filho canhestro do amor, pode gerar. Sei quem alguém é pelos amigos que o cercam, mas, igualmente, pelos inimigos que o atacam. Há muito a aprender pela frente. Que seja um novo e produtivo ano. Bom domingo a todos vocês. 

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