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Um anjo em busca do pai

Não Se Pode Viver sem Amor acompanha a busca desesperada de um menino

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2011 | 00h00

Muita coisa mudou no percurso que agora culmina com a estreia de Não Se Pode Viver sem Amor. O novo filme de Jorge Duran foi exibido nos festivais do Recife e de Gramado em 2010. Entre o primeiro e o segundo longa do diretor chileno, A Cor do Seu Destino e É Proibido Proibir, passaram-se 20 anos. Do segundo para o terceiro, apenas 3. Duran comemora: "Estou ficando velho, não tenho mais 20 anos para despender entre um filme e outro". As mudanças referidas no começo do texto foram complexas, mas não estruturais.

O filme chamava-se Gabriel à Sombra do Edifício e se passava no centro de São Paulo, numa área próxima ao Viaduto do Chá. O título mudou e também a paisagem - a ação transferiu-se para o Rio, também uma área central, onde convivem velhas casas e praças, uma arquitetura que agrada ao diretor. A essência permanece intacta, inclusive o aspecto mais controverso ou desconcertante de Não Se Pode Viver... - o milagre, do qual Duran nunca quis abrir mão, nem nas oficinas de roteiros em que profissionais respeitados colocavam em xeque sua escolha.

Não Se Pode Viver... conta a saga de um garoto que chega à cidade grande acompanhado por uma mulher, em busca do pai. Sua história cruza com as de diversos personagens. "Muita gente acha que Gabriel, o menino, é o protagonista do filme, mas para mim a estrutura é coral e os cinco personagens têm a mesma importância."

Gabriel não se chama assim por acaso. O nome carrega conotações bíblicas, o anjo anunciador. Duran define-se como ateu místico. Não Se Pode Viver... não deixa de ser uma alegoria sobre a sagrada família. Nesse Rio, fantasmagórico e noturno, as pessoas se perdem para se encontrar e a família, reencontrada, se reconstitui. O "milagre" envolve uma morte e uma ressurreição. Carl Theodor Dreyer e Carlos Reygadas já fizeram isso, respectivamente em A Palavra e Luz Silenciosa. Nos filmes de ambos, os personagens vivem em comunidades fechadas (e religiosas), o que facilita a aceitação do milagre pelo espectador. Duran não fornece essa facilidade a seu público. Ele exige.

O diretor desembarcou no Brasil nos anos 70, fugindo da ditadura de Pinochet, no Chile. Ele possui carteira de residente, sabe que não conseguiria ser brasileiro. Mantém suas origens chilenas - uma filha mora lá -, esmera-se em falar corretamente o português, mas o sotaque é carregado. Como roteirista, ligou seu nome a obras realistas como Lúcio Flávio e Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Babenco. Só que, desde A Cor do Seu Destino, ele tem colocado em discussão os limites desse "realismo". Agora, de novo quebra o realismo e produz uma obra única no cinema brasileiro atual.

NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR

Direção: Jorge Duran

Gênero: Drama (Brasil/2010, 100 minutos). Censura: 12 anos.

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