Um amor de Woody

NOVA YORK - Você quer saber o que eu comi no café da manhã? Como? Não está interessado? Claro que está. Comi iogurte com cereal. Iogurte desnatado e cereal com baixo teor de carboidrato, naturalmente. Esqueci de tuitar minha nova convicção sobre o poder do vinagre de cidra de maçã para perder peso.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h09

Saí para uma caminhada e, uau, esbarrei no ator Frank Langella, ele mora aqui perto. Um esbarrão tópico, já que o novo filme, em que Langella contracena com um robô, estreia no mês que vem. Você não acha o máximo que eu possa encontrar o Frank Langella na rua? Ele foi indicado para o Oscar pelo papel de Richard Nixon! Vejo que o esbarrão não está causando a impressão desejada.

E se eu revelar o nome da estrela que encontrei na sala de espera da minha médica? O estetoscópio que aterrissa no tórax siliconado dela aterrissa no meu... deixa pra lá. Esta eu vou guardar para depois.

Como é que eu posso manter a sua atenção concentrada em mim? Pleeease? Sim, minha resistência ao stalinismo digital, quer dizer, à transparência radical do Facebook, me coloca em desvantagem. Eu não estou respondendo à pergunta "O que você está pensando?" 30 vezes por dia. Tampouco estou "curtindo" o que quer que seja que tantos milhões "curtem". Mas não abro mão das aspas. Peço um pouco de paciência. Afinal, demorei para compreender que o cachorro mergulhador seria mais relevante do que a cena de Aung San Suu Kyi aceitando seu Nobel da Paz com 21 anos de atraso. Hello! O cachorro é hilariante e uma gracinha. A recém-eleita parlamentar e ex-presa política de Mianmar já me passa dever de casa só com o nome difícil de pronunciar. Sem curadoria, esta palavra que foi prostituída, como foi "cidadania", é claro que o cachorro ganha disparado.

O novo filme da fase agência de turismo de Woody Allen, Para Roma Com Amor, além de ser uma confecção deliciosa, tem quatro tramas paralelas e uma delas nos ajuda um pouco a perdoar Roberto Benigni por trivializar o Holocausto e testar nossa paciência quando aceitou o Oscar de 1999. Veja como eu estou sintonizada com os tempos - trivializar o Holocausto fica lado a lado com o pecado de nos entediar.

Em Para Roma Com Amor, Benigni é um anônimo funcionário italiano cujo carisma negativo é subitamente transformado em mina de ouro. Sua existência inconsequente é alçada a alturas da hiper-realidade e logo nós vemos uma daquelas mulheres impossivelmente lindas que habitam os telejornais italianos entrevistando o joão-ninguém sobre nada, ou melhor, sobre o que tomou no café da manhã. Ele prefere pão torrado! Aos 76 anos, Woody Allen consegue retornar com afinação musical perfeita ao tema do voyeurismo e da celebridade que explorou antes, quando a cultura dos reality shows ainda não havia testado a nossa crença no limite da futilidade.

A deferência com que o perplexo Leopoldo Pisanello de Benigni, famoso por ser famoso, é tratado por repórteres, executivos e maîtres de restaurantes está em sintonia com a autoimportância do momento. Ann Curry, âncora do programa matinal da NBC, se despediu em prantos na quinta-feira, defenestrada por causa do declínio de audiência de um programa que rende US$ 500 milhões anuais para a rede. Entre uma fungada e outra, disse que vai continuar fazendo reportagens - com um salário de vários milhões de dólares - num momento "em que este país e este mundo precisam de clareza". Que alívio, se me faltar clareza, tenho uma personalidade hiper-real como Ann Curry para me guiar.

Mas Roberto Benigni não é nem o melhor de Para Roma Com Amor. Saí do cinema com Ellen Page, a atriz canadense de Juno. Ela vive Monica, uma starlet denunciada pelo onipresente personagem do cada vez mais bem-vindo Alec Baldwin, no papel de um arquiteto dublê de coro grego. Monica é o papagaio algorítmico na era do Google - ela cita um verso de poema, um autor, um filme, uma peça, qualquer falsidade vale para sugerir que abriga uma alma. A vaidade de Monica, um dos melhores produtos recentes da imaginação de Woody Allen, é o refrão do nosso tempo. Faça um passeio pelas páginas da Wikipédia e note como as pessoas editam sua própria biografia, nivelando dados como conquistas profissionais à sua mostarda favorita.

Woody Allen pode ter ido fazer turismo cinematográfico em Roma, a cidade onde Federico Fellini cunhou a palavra paparazzi. Felizmente, seu ouvido continua colado ao asfalto de Manhattan.

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