Um americano com sapatilhas do Bolshoi

David Hallberg assume a cobiçada posição de primeiro-bailarino do famoso grupo russo

ALASTAIR MACAULAY, DANIEL J. WAKIN , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h09

Exatamente 50 anos depois que Rudolf Nureyev chamou a atenção do mundo como o primeiro grande dançarino soviético a desertar para o Ocidente, uma nova deserção simbólica está ocorrendo - desta vez ao contrário.

David Hallberg, o principal dançarino do American Ballet Theater é a primeira estrela do balé americano a ser recrutada de modo permanente pelo famoso Ballet Bolshoi de Moscou. Hallberg, de 29 anos, nasceu em Rapid City, Dakota do Sul, e assume a cobiçada posição de primeiro-bailarino do Bolshoi, mesmo continuando a atuar no American Ballet Theater.

"Pessoalmente, sinto uma grande responsabilidade como americano", disse o bailarino na terça-feira, acrescentando que está orgulhoso de se juntar à histórica companhia. "Vou levar alguma coisa diferente para o Bolshoi, mas também respeitar suas tradições."

Hallberg disse estar consciente da responsabilidade que implica ser o primeiro-bailarino do Bolshoi. "As pessoas estarão observando. E devo fazer jus a isso." Muitos russos partiram para o Ocidente desde a deserção de Nureyev num aeroporto de Paris em 1961, caso de Mikhail Baryshnikov em 1974. Mas com o fim da Guerra Fria, esse fenômeno de dançarinos desertando do país desapareceu. E também ficou mais fácil para os ocidentais irem à Rússia, mas o Bolshoi de Moscou e o Kirov Ballet de Leningrado, hoje Maryinsky de São Petersburgo, não viram necessidade de importar bailarinos, recrutando estrelas cuidadosamente formadas nas próprias escolas.

Poucos estrangeiros ingressaram nessas companhias, e nenhuma estrela.

"Eles não necessitam delas", disse Jane Hermann, empresária da área de dança que representava o Bolshoi. "Esta é a principal razão. Até recentemente, os russos eram os melhores bailarinos no mundo", enfatizou.

Mas em março, um novo diretor artístico, Sergei Filin, assumiu o Bolshoi, e veio com novas ideias. Ele viu o desempenho de Hallberg durante o tour de Kings of Dance na Rússia e também quando visitou o American Ballet Theater.

"Ele é um bailarino romântico e clássico formidável", afirmou Filin durante uma entrevista por telefone, realizada na segunda-feira.

Duas semanas depois de assumir a função de diretor artístico, Sergei Filin convidou David Hallberg, que estava em Moscou com o American Ballet Theater, para almoçar e propôs que ele viesse para o Bolshoi como artista convidado ou primeiro-bailarino.

"Fiquei atônito e alarmado ao mesmo tempo", lembrou Hallberg em uma entrevista recente. "Mas Sergei foi muito tranquilizador e garantiu que eu poderia continuar no American Ballet. E foi claro quando disse 'não quero que você fique numa gaiola de ouro - quero que seja livre. Mas você tem que firmar um compromisso com o Bolshoi. E levo isso muito a sério'".

Na verdade, se algum bailarino americano estaria apto a dar este salto, provavelmente seria David Hallberg. Ele é hoje o maior exemplo de bailarino que consegue incorporar a "nobreza" na dança masculina ao interpretar papéis principescos por causa do seu porte e estilo. Sua pureza de linha e fraseado superam os de muitos bailarinos nos dias atuais.

"Dançarinos 'nobres' como ele são muito raros em qualquer época", disse Kevin McKenzie, diretor artístico do American Ballet Theater. "David certamente é um, mas nunca quis ser classificado dessa maneira. Ele está querendo assumir novos papéis, para experimentar."

David Hallbert também estudou na Escola de Balé da Ópera de Paris e participou dos cursos intensivos de verão do American Ballet Theater. Ele entrou para o corpo de baile da companhia em 2001. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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