Um agente da arte contra vigaristas

Investigador do FBI que criou divisão especializada em roubos de obras-primas conta como resgatou algumas delas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Robert K. Wittman

Robert K. Wittman é um ex-agente especial do FBI especialista em roubos de obras artísticas e fundador da equipe que investiga crimes contra a arte no departamento americano. Já resgatou esculturas de Rodin, teve de mudar de nome (seu pseudônimo era Bob Clay) para recuperar uma rara bandeira usada na Guerra Civil americana, jantou com mafiosos e até negociou com vigaristas para ter de volta obras-primas roubadas, como um autorretrato de Rembrandt surrupiado de um museu sueco.

Aposentado, Wittman resolveu escrever um livro sobre sua experiência, Infiltrado (Editora Zahar), auxiliado na tarefa pelo jornalista americano John Shiffiman, repórter do Philadelphia Inquirer, finalista do Pullitzer em 2009.

As memórias de Wittman, que participou infiltrado de estressantes operações, são mais que simples relatos de suas atividades no FBI. Elas revelam como os agentes especiais do departamento aprendem a distinguir telas falsas de verdadeiras, projetar a imagem sofisticada de grande connaisseur para os criminosos e a lidar com ladrões audaciosos, como os que enganaram os vigilantes noturnos do Museu de Boston há alguns anos, levando telas de Vermeer e Rembrandt - crime até hoje não solucionado.

Wittman, por telefone, concedeu uma entrevista ao Caderno 2. Ele revela que o roubo de obras de arte ocupa, hoje, o quarto lugar entre os crimes transnacionais, perdendo apenas para o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e venda ilegal de armas. São US$ 6 bilhões que os crimes contra a arte movimentam por ano. E esse montante tende a crescer com a crise econômica nos EUA e Europa. Com ela, colecionadores, preocupados em manter o patrimônio, investem mais em arte. Os preços sobem e, como consequência, os roubos aumentam. Mas não são esses colecionadores que compram as obras roubadas, garante Wittman.

Há quatro anos nosso principal museu, o Masp, teve roubadas duas telas, O Retrato de Suzanne Bloch, de Picasso, e O Lavrador de Café, de Portinari. Você diz em seu livro que esse tipo de roubo é praticado, de modo geral, por ladrões comuns e que não representam nem 10% dos crimes contra a arte. Por que, então, vigaristas ainda roubam museus se é difícil vender uma obra famosa?

Embora esses roubos rendam manchetes e inspirem filmes, eles são praticados não por especialistas ou ladrões sofisticados. São ladrões atraídos por grandes nomes, que pensam conseguir 10% do valor da obra pedindo resgate - e muitas vezes conseguem, até da própria polícia, interessada em resolver o caso. Nos anos 1980, um traficante de drogas vendeu um Rembrandt de US$ 1 milhão para um agente do FBI disfarçado por 2% desse valor. Para o ladrão, receber US$ 20 mil por um quadro que ninguém mais compraria até que é um bom negócio. Sempre digo que o mais difícil não é roubar, mas vender uma obra de arte roubada. Nos últimos 20 anos, os ladrões ficaram mais ousados, como prova o roubo de Matisse, Monet e Dalí no Rio (em 2006, ladrões entraram no Museu da Chácara do Céu e levaram telas desses artistas durante um baile de carnaval, misturando-se aos foliões do Bloco das Carmelitas).

Há também o caso do roubo de O Grito, de Munch, em que os ladrões fecharam negócio por US$ 750 mil para entregar uma pintura que vale US$ 75 milhões. Quem pagaria esse preço para reintegrar a obra ao acervo do museu? Companhias seguradoras?

Bem, nos Estados Unidos elas estão proibidas de fazer esse tipo de transação, sob pena de enfrentar um processo grave de obstrução da Justiça, mas cada país tem uma legislação diferente. O fato é que muitas vezes temos de negociar com os ladrões para ter uma tela de volta, pois eles ameaçam até destruir as obras. Eu mesmo já coloquei US$ 245 mil diante de um ladrão iraquiano para ter de volta um pequeno autorretrato de Rembrandt (pintado em 1630, pertencente ao Museu Nacional Sueco e avaliado em US$ 55 milhões). Muitas vezes os museus reúnem seus conselheiros, que também são colecionadores, e eles acabam fazendo doações para resgatar as obras.

Há meio século que os roubos de obras de arte dominam as manchetes de jornais, prevalecendo certa queda pelos pintores impressionistas. É possível que a crise econômica nos EUA e em alguns países da União Europeia faça aumentar o número de obras-primas roubadas?

O crime segue as crises econômicas, de maneira geral, e as obras de arte se tornam mais atraentes como objetos vendidos no mercado negro. É preciso considerar que o submundo negocia indiferentemente com drogas e quadros, o que torna a carreira de agente infiltrado um tanto perigosa, especialmente num tempo em que o dinheiro deve circular com mais rapidez. Cresceu o número de roubos até mesmo em museus e nada indica que eles vão parar.

Você foi dono de jornal antes de virar agente. O que o fez largar um negócio seguro por uma atividade que provou não ser o trabalho dos sonhos que abraçou aos 32 anos?

Posso ter dado uma impressão errada por ter falado que a equipe de crimes contra a arte, criada com grande expectativa de minha parte, foi prejudicada por mudanças de planos e pela transferência de agentes para setores prioritários, como o dos crimes praticados por terroristas, hoje nossa maior preocupação. Mas não me arrependi de ter trocado de profissão, pois ela me deu muita satisfação.

Em seu livro você menciona o caso das obras roubadas de Norman Rockwell recuperadas há dez anos, no Rio, com a ajuda do marchand José Carneiro. Você acredita que os negociantes de arte do Brasil sejam menos honestos que os de outros países?

Nem mais nem menos. O marchand José Carneiro tinha a posse de obras do artista americano roubadas nos EUA, mas não se pode acusá-lo de roubo. Ele ajudou o FBI. Marchands por vezes negociam obras sem saber a procedência. Eles só querem ganhar dinheiro fácil. Para nós, significou uma dupla vitória, pois Rockwell foi o pintor que retratou os EUA em tempos de crise. E seu resgate se deu no ano em que aconteceram os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, retratadas numa das pinturas recuperadas.

INFILTRADO

Tradução: Alexandre Martins

Editora: Zahar

328 págs., R$ 39,90

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.