EMI/Divulgação
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Um adeus ao punk de pista

James Murphy faz um dos últimos shows com o seu histórico grupo LCD Soundsystem hoje, em SP

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

O homem que trouxe o rock de volta às pistas está tomando a saideira. "Quero coar café", disse ele ao apresentador de TV Stephen Colbert esta semana, com o timing certeiro e o senso de humor levemente auto depreciativo que caracterizam suas letras. Colbert queria saber por que diabos James Murphy, o cara mais cool da cena indie, resolvera desmanchar uma das bandas mais influentes da atualidade, o LCD Soundsystem, que toca nesta sexta-feira, 18, em São Paulo, no Warehouse (tel. 2189-3700), antes do grand finale em Nova York.

Mas a saudade do corriqueiro, sintoma clássico de turnês excessivas, é apenas um dos motivos para o fim do híbrido de disco, punk e house, espertamente enredado por Murphy no início dos anos 2000.

Murphy já citou que, por causa da banda, teve de abrir mão de trabalhar com o Arcade Fire no disco Neon Bible, além de deixar de lado colaborações com Spoon, Devo e John Cale, entre outros. Tem a sua gravadora, a influente DFA Records, coadjuvante inseparável do sucesso da banda. E mais do que ninguém, compreende que sua readaptação do feliz encontro que a disco music teve com o punk em Nova York, no início dos anos 80, está prestes a estagnar-se. Em entrevista à revista Spin, que o distinguiu como o artista mais importante de 2010, Murphy disse que "a ideia de misturar punk com dance foi como uma explosão na minha cabeça. Três álbuns me parecem um arco natural para isso". A razão da capa era o sucesso do disco This Is Happening, que estreou em décimo lugar na Billboard ao mesmo tempo em que foi sucesso de crítica. É para muitos o opus magno de Murphy em sua encarnação LCD, uma última e explosiva excursão pelo território saudosista impulsionada pelas batidas que dominavam o pop durante sua adolescência. A trajetória de Murphy é inseparável de sua obra e o levou a ser, numa década em que a releitura virou praxe, o mais brilhante dos nostálgicos. Murphy "bundou" dos 20 aos 30. Depois de se formar em letras, no fim dos anos 80, recusou oferta para escrever uma sitcom, ainda em fase de concepção, sobre um comediante judeu nova-iorquino. O programa chamava-se Seinfeld e Murphy pagou boa parte de seu aluguel nos anos 90 trabalhando como atendente de telemarketing.

Enquanto isso, tocava bateria em grupos de punk e math rock e trabalhava como engenheiro de som, equalizando o PA de bandas locais. Quando resolveu tomar juízo, abriu um estúdio.

Produziu alguns discos e conheceu o inglês Tim Goldsworthy, produtor e dono de gravadora ativo na cena de trip hop do início dos anos 90. Na época, bandas então desconhecidas, como os Strokes, começavam a desenvolver uma cria de rock sujo e estiloso, com timbres enferrujados e batidas mais secas, feitas como uma rejeição ao rock excessivamente produzido que dominava as rádios e um tributo à cena punk que viera de boates como Mudd e CBGB"s. Os anos 80 haviam se tornado cool novamente e Murphy e Goldsworthy resolveram fazer uma festa para discotecar os sons que borbulhavam no zeitgeist da cidade.

De acordo com o próprio Murphy, num momento embalado a ecstasy, ouviu Tomorrow Never Knows, dos Beatles, e percebeu que a música da época carecia de uma pulsação mais sólida. A dupla formou então a DFA (Death From Above) Records e mergulhou na produção de bandas locais que se inclinavam na direção da pista. O primeiro sucesso foi com o grupo Rapture e o single House of Jealous Lovers, um encontro de gritos viscerais com a batida disciplinada, quase metronômica, de heróis do pós-punk nova-iorquino como ESG e Liquid Liquid.

A dupla começou a receber ligações de gente como Janet Jackson e Britney Spears (com quem Murphy passou uma tarde tentando compor mas desistiu depois de perceber que a cantora não gostava de introspecção). Mas Murphy e Goldsworthy já haviam descoberto o ingrediente certo: a ideia era lançar versões longas, feitas para a pista, de rock dançante. Agregada ao saudosismo e às incertezas de um Murphy a caminho da meia-idade, essa mistura deu origem à identidade sonora do LCD Soundsystem. No lado A do primeiro compacto, I"m Loosing My Edge, um manifesto impagável sobre as angústias de um músico que vê a próxima geração se tornar mais descolada. No lado B, Beat Connection, uma faixa disco extensa, em que os vocais só entram após o quarto minuto. O single virou sucesso internacional e, com a fórmula pronta, Murphy não errou a mão uma única vez: Suas mais conhecidas (Daft Punk Is Playing at My House, All of My Friends) se tornaram hinos de uma geração; suas mais obscuras são aulas de mixagem, arranjos de timbres eletrônicos e suingue. Ao vivo, Murphy incendeia e o tom de despedida de sua apresentação de hoje deve proporcionar um show memorável para moderninhos, modernetes e aqueles que, como o próprio cantor, se sentem fora de moda, mas sabem que a experiência supera o hype.

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