Último romance de Aluísio Azevedo é reeditado

O ano de 1895 marcou a vida do escritor Aluísio Azevedo (1857-1913), já consagrado na época como o principal nome do naturalismo brasileiro: além de ser nomeado como vice-cônsul na Argentina (o primeiro passo de sua carreira diplomática), ele publicou o que se tornou seu último romance, Livro de uma Sogra. A obra, agora reeditada pela Casa da Palavra, representa um momento de transição na carreira de Azevedo: incomodado com o mercado editorial brasileiro, que não lhe permitia viver de literatura e o obrigava a escrever folhetins que abominava, ele desistiu da escrita e se iniciou na diplomacia, primeiro na Argentina, depois no Japão.Para piorar a situação, Azevedo, autor de clássicos como O Cortiço e O Mulato, não recebeu os honorários que esperava pela venda dos direitos de toda sua obra à editora Garnier, acerto realizado antes de viajar. Desgostoso, só não encerrou completamente a carreira literária naquele momento porque, empolgado com a civilização japonesa, escreveu um ensaio que só viria a ser publicado em 1990, graças ao esforço do pesquisador Luís Dantas.Livro de uma Sogra provocou um escândalo quando publicado. Ao defender uma teoria cujo objetivo era o de preservar a sexualidade dentro do casamento, Aluísio Azevedo foi acusado de imoralidade e, pior, foi criticado pelas pretensões científicas do naturalismo. Aos olhos de hoje, porém, revela-se uma divertida e atual discussão sobre o casamento.O livro reproduz o manuscrito de uma astuta senhora, d. Olímpia, a sogra do título, que transforma em um verdadeiro inferno o casamento da filha Palmira com o jovem Leandro, já a partir da lua-de-mel, quando inicia a série de situações que provocam separações momentâneas do casal. Sua intenção é nobre: assegurar a felicidade que ela própria não conhecera em um casamento desfeito pela tediosa rotina doméstica.Desenvolvido nos moldes de um tratado filosófico, recheado de proposições e experiências minuciosas, o conjunto de idéias de d. Olímpia prega, entre outros assuntos, o direito da mulher ao prazer sexual e conclui que o esfriamento do amor carnal de um casal é provocado pela chegada dos filhos e pela rotina em que se transforma a convivência, transformando uma paixão em uma amizade fraterna.Os conceitos são apresentados como verdadeiros mandamentos: "As quatro paredes de uma alcova de amor podem conter um vasto paraíso de intérminas esperanças e um mundo de venturas; o pequeno espaço de uma cama é, entre todas as vastidões da terra, o campo mais largo e mais importante no destino de um homem." Ou ainda: "O casamento é quase sempre um duelo, em que um dos dois adversários tem de ser vencido; os sogros nada mais são que as testemunhas oficiais, imediatamente interessadas na luta."Evolução - A edição preparada pela Casa da Palavra é cuidadosa - a capa apresenta quatro desenhos de mulher, que mostram a evolução dos tempos a partir do vestuário, desde o fim do século retrasado até os dias de hoje. Uma forma inteligente de mostrar que o assunto principal, o casamento, continua vivo, seja qual for a roupagem.O livro conta ainda com um dossiê relativo à vida pessoal de Aluísio Azevedo e à repercussão que alcançou a primeira publicação da obra, com a reprodução de artigos de imprensa da época, assinados por José Veríssimo, Valentim Magalhães e Artur Azevedo, o irmão mais velho do autor. Para completar, um prefácio assinado por Núbia Melhem Santos.Apesar de predominantemente elogiosos, os textos permitem medir a temperatura da crítica quando da publicação do livro. E também notar como os homens daquela época encararam uma história que aponta a incompatibilidade entre o amor carnal e o espiritual. Como bem observa Núbia, a crítica de José Veríssimo reconhece que a história de Livro de uma Sogra exibe cenas verdadeiras, mas é evidente também sua rejeição pelo humor de Azevedo, classificando-o de baixa comédia, sem originalidade e imoral."Pelo que pude entender, Veríssimo levou a sério o modelo proposto por Olímpia e chega a dizer que nos moldes da sogra o casamento seria instituição reservada aos ricos que pudessem ir passear à Europa ou aos Estados Unidos, como Leandro", escreve Núbia. "Ou que a sociedade criasse repartições competentes para separar os casais de tempos em tempos em nome do amor e da felicidade dos pares." Ela conclui com a observação do crítico de que Azevedo não apresenta nenhuma solução ao problema.O que não é de se estranhar: Aluísio Azevedo, assim como seus quatro irmãos, foram fruto de uma feliz e duradoura união extraconjugal, só legalizada depois do nascimento do último bebê (a mãe do escritor abandonou o marido depois de se descobrir traída e se uniu com um homem mais novo, que se tornou o pai das crianças). Azevedo ainda optou pelo solteirismo, observando e divertindo-se com os problemas dos casais amigos.Livro de uma Sogra, de Aluísio Azevedo. Prefácio Núbia Melhem Santos, artigos de José Veríssimo, Valentim Magalhães, 256 págs., Casa da Palavra. R$ 23

Agencia Estado,

24 de agosto de 2001 | 18h32

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