Último riso de fantasmas bêbados

Espetáculo Balangangueri retrata lendas de uma Irlanda arcaica

O, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2012 | 03h07

romance Trindade, de Leon Uris, é um épico sobre a formação da Irlanda independente e contemporânea através da saga de três famílias, do começo do século 19 ao sangrento levante da Páscoa de 1916, marco das lutas contra o domínio da Inglaterra. País tão belo, a Irlanda tem ao mesmo tempo uma história repleta de batalhas independentistas, períodos de fome e emigração maciça (há uma verdadeira América irlandesa), tudo permeado de mistérios culturais, lendas envolvendo civilizações antiquíssimas.

A linha trágica da sua constituição social e econômica corre paralela aos cantos e músicas de um povo extrovertido, passional e com uma tendência ao místico, dos ritos pagãos à fidelidade aos padroeiros da terra, São Columbano, Santa Brígida e São Patrício (festejado ruidosamente a cada 17 de março).

Há um trecho de Trindade que resume o ambiente dramático da peça Balangangueri, de Tom Murphy pela Cia. Ludens com direção de Domingos Nunez: "O bar estava impregnado de cheiro de fumaça, cerveja e uísque, muitos não estavam mais no seu juízo perfeito". Eis uma das características do espetáculo: não se estar com o juízo no lugar.

É preciso curiosidade antropológica ou apenas gosto pela poesia para acompanhar as nuances do comportamento irlandês. Ao comentar o início da encenação de Balangangueri, o diretor Domingos Nunez admite que se viu diante de uma escritura demasiadamente densa. É o termo correto: tudo ali é excessivo, transbordante e errático.

Esqueçamos a lógica. O que rege o espetáculo é o delírio. A Irlanda concreta, geográfica, nem é mencionada porque o território ficcional é tão vasto que nele cabe das fantasmagorias dos celtas, povoadores originários da região às sugestões psicanalíticas de Ernest Jung. Um teatro realmente estranho, muito bem dirigido por Nunez, que pede ao espectador que aceite o fenômeno cênico no seu aspecto subjetivo, plástico e sonoro. Que ele tente não se perturbar com o excesso de gritos que tentam reproduzir um estado mental caótico ou um pub/botequim (gritaria no palco sempre incomoda).

O enredo é um tricô, arte de tecer que é uma das joias da Irlanda. De um novelo de lã se pode criar agasalhos com imagens simples ou plenas de simbolismos ancestrais. Em termos metafóricos, esse tricô está nas palavras de uma mulher, já avó, mentalmente perturbada no sentido clínico, ou quem sabe apenas uma sensitiva. Um autêntica druida (sacerdotes conselheiros e pensadores entre os celtas). Alguém, enfim, que transita em outro plano da realidade e que testemunhou um concurso de risada em um lugarejo batido pelo vento e pela chuva, e viu assustadoras consequências.

Houve a disputa que, em si, pode ter sido uma bravata de aldeões, mas resta a possibilidade de ser algo mais. De ter sido um encontro soturno que o álcool acentuou. Maldições e apelos bíblicos. A memória dessa senhora é igual a uma frase do dramaturgo Eugene O'Neill (filho de irlandês): "Não há presente, nem futuro - só o passado acontece e torna acontecer - agora". Sua conversa com as netas faz materializar aquela noite com homens às gargalhadas insanas e todo um universo arcaico que a duras penas a Irlanda mitigou (é hoje um país moderno, apesar da crise europeia geral).

Nesse entrecho, as teorias de Jung sobre o inconsciente coletivo mais do que nunca fazem sentido e, por esse caminho, a peça é mesmo saga pré-medieval, dali e de outras partes. Faz até mesmo lembrar histórias de magias e fenômenos astronômicos que se contam nas noites do Alentejo, sul de Portugal onde há formações megalíticas, templos de pedra, semelhantes às das Ilhas Britânicas (como as "stonehages", Inglaterra). Os celtas andaram naquelas paragens. O melhor é entrar messe clima e aceitá-lo com os giros dos dervixes ou do candomblé.

A representação não oferece conserto para o mundo, apenas e principalmente, abre espaço para algum mistério em uma época de pouca transcendência. Faz uma missa de bêbados, solitários, de teimosos anônimos, levada adiante por intérpretes poderosos, todos, mas com destaque para o quarteto formado por Denise Weinberg, Hélio Cícero, Renato Caldas, Mário Borges.

O dramaturgo não pode ser cobrado pela nossa provável dificuldade em entrar em um universo cultural e linguístico tão específico quanto o da sua Irlanda que - além da cerveja Guinness, do uísque Jameson e da cantora Sinead O'Connor e, sim, James Joyce, mais para citar - passamos a conhecer de modo opostos: o clássico documentário Os Homens de Aran, de Robert Flaherty (1934) sobre a dura faina nessas ilhas, aos filmes recentes sobre os dramas políticos irlandeses, sobretudo do Eire, a Irlanda do Norte, parte do território que Londres ainda domina.

Balangangueri é um jogo de memória e assim será melhor apreciado. Se os irlandeses nos parecem distantes, não custa lembrar um acaso histórico e amoroso. José Bonifácio de Andrada e Silva, o político que articulou a Independência do Brasil, o chamado Patriarca, quando estudava em Portugal conheceu e se casou com a irlandesa Narcisa Emilia O'Leary, o que quase não se sabe. Tiveram duas filhas, Carlota Emília e Gabriela Frederica.

Um encontro ficcional da recatada Narcisa com a também irlandesa Elisa Lynch, essa a audaciosa mulher de Solano Lopes, o "presidente vitalício" do Paraguai, parece o começo de uma futura peça da Cia. Ludens.

Crítica: Jefferson Del Rios

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