ÚLTIMA CHANCE DO DIVINO

Ronaldo Bressane estreia com gibi sobre batalha entre máquina e espírito

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h11

É como se principiasse uma Primavera Árabe universal a partir da música e de um sentimento misterioso de pacificação e autoconhecimento. Militares e guerrilheiros abandonam suas armas, criminosos cessam suas hostilidades, executivos de multinacionais abrem mão de sua ganância. O responsável por isso é Vishnu, uma inteligência artificial autônoma que surge do nada no hipervigiado mundo eletrônico.

"Vishnu é Deus?", pergunta a mídia. E como evitar a contaminação pela música que sai desse novo ente? Esse é, basicamente, o enredo de V.i.s.h.n.u., a primeira aventura em quadrinhos do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de Céu de Lúcifer (Azougue Editorial). Ele conta com o auxílio luxuoso dos desenhistas Eric Acher e Fábio Cobiaco na sua primeira graphic novel, editada pela Cia das Letras.

A arte da HQ trabalha nos interstícios de influências reconhecíveis, de Moebius a filmes como 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick, e Os 12 Macacos, de Terry Gilliam. Trata-se, claro, de uma distopia: o mundo vive um momento de globalização opressiva, de controle de todos os passos de seus cidadãos. Isso resulta de um acidente com a primeira grande matriz de inteligência artificial, o Dude: sua insubordinação culmina com um colapso que derruba bancos, corporações, governos, sistemas de transportes. Cidades ficam em ruínas. Robôs se suicidavam pulando da Ponte Estaiada, em São Paulo.

O que sobrevém a isso tudo é a época em que se passa a ação de V.I.S.H.N.U., na qual é criado um conglomerado de países para administrar a crise, o WE (World Enterprises). "O mundo que emergiu dessa crise aprendeu a tratar os computadores com desconfiança, mas não soube diminuir sua dependência deles. Grandes complexos de pesquisa foram criados ao redor do mundo, dedicados a estudar tecnologias que a humanidade pensava ter deixado para trás."

Aparentemente, começa um período que alterna sobressaltos e tranquilidade. O Dude se mata, deixando o mundo em caos para ser novamente regulado. Criam-se leis cibernéticas, elegem-se administradores de crises, e a vida segue. Como numa canção de Fausto Fawcett, cientistas-surfistas-pastores combatem rebeliões contra a escravidão tecnológica e depois transam com androides e sonham com o "upload de consciência".

Na mitologia hindu, Vishnu (palavra originada da raiz sânscrita vishva, ou "tudo", segundo a Wikipédia) é o deus responsável pela manutenção do universo e vem ao mundo em diversas formas. Bressane optou por trazer seu Messias na forma de um impulso eletrônico gerado dentro de um supercomputador, o Limbo. A questão que se coloca é: é possível confiar completamente numa entidade autônoma nova e aparentemente altruísta e deixá-la solta no mundo?

Na história, há guerrilheiros que falam "portunhol selvaje", há apresentadoras de TV sexies e alienadas, discute-se ética científica e ética jornalística e há um romance por baixo de tudo. Ronaldo Bressane tem 42 anos e vive em São Paulo. Fábio Cobiaco é de São Vicente, litoral de São Paulo, e vem publicando quadrinhos desde os anos 1980, em revistas como Chiclete com Banana e General. Eric Acher é o consultor tecnológico do time: paulistano, formou-se em publicidade e trabalha em empresas de tecnologia.

Com o lançamento, o selo Quadrinhos na Cia. dá prosseguimento a um esforço de lançar material nacional inédito de fôlego, que teve início em 2011, com a publicação do álbum Quando Meu Pai se Encontrou com o E.T. Fazia Um Dia Quente, de Lourenço Mutarelli.

Ogibizão V.I.S.H.N.U. peca ainda por um excesso de didatismo, mas é um suado esforço de estreia.

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