Ugo Giorgetti

Enquanto se prepara para rodar em junho seu próximo filme, que se passa no período militar, este paulistano de 67 anos estreia na sexta-feira o novo longa, solo

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Solo é quase uma confissão do personagem de Antonio Abujamra. Como nasceu o projeto?

Nasceu de um monólogo que escrevi para o Sérgio Mamberti, que não foi montado. É um filme simples sobre um velho que reflete sobre quanto a sociedade, e São Paulo, estão por vezes brutalizados e desesperados. É um cara que vive em um mundo que mudou tanto que ele não o entende mais.

Você cresceu e vive em São Paulo. Solo tem muito de você?

Tem. Criei meus três filhos aqui, mas hoje não sei se repetiria. Brinco que uma delas (que é socióloga e vive em Paris) escapou. Mas os outros dois, outro sociólogo e uma designer, ainda moram aqui. Acho que nos acostumamos com coisas não-normais. Não é normal alguém ser morto ao tentar ajudar outro que foi assaltado (aconteceu com um amigo). São Paulo está uma loucura!

Apesar disso, você continua filmando esta loucura.

Não vejo por que filmar em outro lugar. É sobre aqui que entendo. O filme novo, Corda Bamba, que vou rodar durante a Copa, é todo passado em locações paulistanas.

Sobre o que é a nova história?

Passa-se em 1971, em pleno Governo Militar, quando eu era jovem, mas não é sobre a face mais pesada da ditadura. Sentia falta de um filme mostrando que se vivia numa corda bamba, mas muitos tinham uma rotina normal, inclusive eu. Acho que vou arrumar problemas por conta de um dos personagens.

Com a esquerda?

Claro! Porque o filme mostra uma jovem militante de esquerda que mora com o avô e é escalada para esconder dois amigos por três dias. O avô é general reformado, mas é ético, contra a tortura. Imagine a tensão que se instala na casa.

Apesar de ser de esquerda, não teve problemas com a ditadura?

Não. A maioria das pessoas levava, ou tentava, levar uma vida normal. Fui parar na Oban (Operação Bandeirantes), mas porque meu carro foi confundido com outro que jogava panfletos. Quando o general abriu minha carteira de trabalho e viu que eu era publicitário, disse: "Olha como este rapaz ganha bem! Não pode estar envolvido com atos subversivos!" Não me aconteceu nada, mas poderia ter acontecido. Esta era a corda bamba!

QUEM

Ugo Giorgetti

"Solo é um monólogo cinema-tográfico. Nele, Antonio Abujamra encarna um homem preso em seu próprio medo no coração de São Paulo"

O QUÊ

Café com leite

O diretor, que pela primeira vez realizará um filme em coprodução (entre a sua SPFilmes e a Bossa Nova Filmes), pediu café com leite

ONDE

Açaí Frooty

Ele cresceu em Santana, mora em Perdizes e tem produtora na Vila Madalena, onde gosta de ir a cafés tranquilos, como o Açaí Frooty (R. Natingui, 700)

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