Uberliberalismo radical

A ditadura foi necessária. Foram tempos de bonança e as novelas eram mais respeitosas

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2019 | 02h00

No Brasil, há um projeto em andamento para desqualificar instituições democráticas, arruinar reputações de partidos, políticos, empresas públicas, imprensa, juízes, ministros, universidades, artistas, nulificar legados. Mas e o que vem depois? 

Como propaganda política para angariar votos numa espécie de campanha com vale-tudo, dá frutos. Brexit, Trump e Bolsonaro surpreenderam e abiscoitaram eleições democráticas. Foram a escolha da vontade popular. Mas faz sentido como proposta de governo?

O projeto em andamento é o da terra arrasada, como uma candidata ao trono que, escolhida, monta-se num dragão e queima a capital do reino. É o projeto do uberliberalismo extremo, explícito, radical. 

Destroem-se sinais de ideologia inimiga. Marx, Gramsci e até Paulo Freire tornam-se vilões do progresso. Justiça social se torna um entrave. O adversário passa a ser obsessão. Tudo de ruim é obra do oponente. A culpa é das esquerdas, da velha política. Reescreve-se a História. Até o nazismo virou de esquerda. 

Exemplos malsucedidos de socialismo passam a ser difundidos. Como se atacássemos o republicanismo democrático utilizando exemplos como as repúblicas presidencialistas do Quênia e Gana e as repúblicas parlamentaristas de Bangladesh e Camarões, os quatro lanternas na tabela do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU.

Apesar do lema Brasil Acima de Tudo, da perseguição às minorias, propaganda massiva, milícias, exaltação do passado, gestual com as mãos (arminha), armamento da sociedade e militarização das instituições, não, esse governo não é fascista, em que o Estado é tudo, o indivíduo, nada. 

No fascismo, a missão do cidadão é servir, o trabalho dos governantes, ditar regras. No uberliberalismo, quer-se o governo longe do cidadão. No estado de ultraliberalismo, o social é o entrave, o individual é a saída. O Estado some.

Suprema Corte é fechada por um soldado e um cabo num Jeep, o estado de direito é revisto, e o cidadão se defende, compra revólver da Taurus. A Taurus é coisa nossa. Dentro de casa, o cidadão é seu próprio juiz, promotor, delegado, policial, e faz a justiça que lhe convier. 

Político é tudo ladrão, partidos são gangues organizadas para arrecadar fundos de um caixa 2 e do fundo partidário, além de atrapalhar a tramitação, através da velha política, de novas matérias, promessas e reformas.

O projeto uberliberal é:

1. Liberal na economia, não nos costumes.

2. Filosofia é chato, ninguém entende, perda de tempo.

3. Sociologia, antropologia, história, idem: berçário de marxistas.

4. IBGE é desperdício de dinheiro. Não precisamos conhecer o cidadão. Conhecê-lo é constatar miséria, desigualdade social. Coisa de marxistas.

5. Pesquisa científica gasta dinheiro.

6. Universidade é desperdício de recursos que poderiam ir para a Segurança Pública e diminuir as estatísticas de roubo de celular.

7. Livros são inúteis na era das redes sociais.

8. Jornais são perda de tempo, já que as informações chegam mais rápido em grupos de WhatsApp.

9. O respeito ao meio ambiente é um entrave para o progresso. A terra é para ser explorada, é um presente de Deus.

10. Índios são selvagens que atrapalham o desenvolvimento, pois estão sentados em grandes reservas de madeira, minérios e terras agriculturáveis.

11. Propriedade é sagrada. Se entrar em casa, mete chumbo. Propriedade privada é o Estado individual.

12. Bandido bom é bandido morto.

13. Direito à defesa é privilégio de bandido.

O estado ultraliberal pretende o Estado mínimo. Para isso, destrói a ideia de um que seja capaz de promover o bem-estar social.

Acaba com a reputação de universidades públicas, como se fossem antros degenerados de alunos inúteis, bêbados, drogados, sempre pelados pelos corredores: um enorme desperdício de dinheiro.

Acaba-se com a ciência e a pesquisa, afinal, a minha verdade não é empírica, não é a tese comprovada por dados e experiências.

Pesquisadores gastam dinheiro público à toa. A verdade é a minha verdade, a que meus amigos me contaram, a que a minha Igreja defende no culto dominical, na que acredito. Verdade é fé, não ciência.

A Terra é redonda? Depende. Para você, pode ser, mas para meu grupo do WhatsApp, não. A Teoria da Evolução nos faz parentes dos macacos? Não é o que diz a Bíblia. E eu sigo as Sagradas Escrituras. 

Preste atenção, não se deve acreditar em tudo que se lê por aí, especialmente nos livros e no que sai nos jornais. Atente ao viés ideológico conflitante aos interesses da Nação. Tem um complô em andamento das esquerdas, para fazer lavagem cerebral nos jovens. 

Ser gay é uma doença? É um desvio, me disseram, e acredito. Afinal, também está na Bíblia, o homem é para ficar com a mulher, para florescerem. Assim é a família. Se tem cura? Tem um grupo de reza lá na minha Igreja que cura. Tem também um espírita que faz operação para curar gays. E tem o exorcismo do pastor, que aos domingos cura muitos gays, alcoólatras, aleijados, viciados que perderam tudo. Eu vi na TV. Tudo porque o cão está dentro do indivíduo. O capiroto. O demo. O coisa ruim. Coisa simples tirar o diabo de dentro de uma pessoa. O pastor consegue só com os gestos, sopros e comandos. 

A ditadura foi necessária, um amigo do meu pai que viveu naquele tempo me disse. Se não fosse pelos militares, os comunistas decretariam uma ditadura de esquerda. E foram tempos de bonança, sem violência. As pessoas podiam andar na rua. Homens não beijavam homens em público. E as novelas eram mais respeitosas, com os valores tradicionais e cristãos em destaque. Nossos filhos assistiam à Bela Adormecida, não à Frozen – Uma Aventura Congelante. Congelante e lésbica, a ministra disse. 

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