TV: Um ator dividido em dois

Vivendo tipos opostos no teatro e na televisão, Marcos Caruso trabalha até 14 horas por dia

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h09

Depois de 12 horas gravando Avenida Brasil, Marcos Caruso pula no carro da produção, pega duas vias expressas até chegar à que dá título à novela, corre até o centro do Rio e começa sua segunda jornada. Do suburbano Leleco, ex-pugilista que só anda de regata e arrastando o chinelo, passa ao sofisticado Andrew Wyke, escritor inglês criado pelo dramaturgo Anthony Shaffer e já vivido por Laurence Olivier e Michael Caine no cinema.

Tem sido assim toda sexta-feira e sábado, desde a estreia do thriller Em Nome do Jogo, no Teatro Maison de France, em março. Tem sido assim há 39 anos, desde que Caruso pôs os dois pés na profissão - é ator, autor, diretor e tradutor. "Serão 40 anos em 2013, e sempre na correria. Coloco o teatro em primeiro lugar. Se somarem os meses em que não fiz peça, não dá quatro anos", ele já contabilizou.

Do caminho, quando está quase chegando ao teatro, liga mandando soar o primeiro sinal. Acontece de chegar atrasado. "Gosto dessa adrenalina. Quando estou mais cansado faço os melhores espetáculos."

Caruso falou ao Estado às 23h30 de uma sexta-feira, terminada a peça e os rápidos cumprimentos da amiga Marília Pêra. Trabalhando desde as 8 horas, entre o Projac e as externas no bairro de Madureira, no subúrbio real que inspirou o Divino da novela, estava esgotado.

Durante um ano e meio o projeto teatral foi tocado com o diretor Gustavo Paso. A adaptação do texto foi a quatro mãos. O primeiro contato foi com o filme de 1972, com Laurence Olivier como Wyke e Michael Caine como Milo Tindolini, o amante jovem e charmoso de sua mulher, Marguerite, uma criatura "insuportavelmente vaidosa e infantil, que fala como um papagaio e faz amor como um paralelepípedo". É com Tindolini que Wyke trava um jogo de simulações, embates verbais violentos, perversão e muitas reviravoltas.

O texto de Shaffer (1926-2001), famoso por suas tramas de suspense (foi roteirista de Hitchcock), gerou outro filme, em 2007, com Caine agora como o personagem mais velho, e Jude Law encarnando Milo. Aqui, Emílio de Mello faz Milo nesta primeira temporada. Em breve, ele será substituído, pois entrará numa novela.

Para Avenida Brasil, a imersão de Caruso foi num universo que lhe era totalmente estranho: Leleco vive bronzeado, é malandrão, bebe cerveja, joga sinuca, larga a mulher de meia-idade por uma de 20 anos. Na estreia, chegou a brincar que tinha havido um erro de escalação.

"Sou italiano de São Paulo, não tenho a ver com esse universo", avalia. "Não sabia que seria esse estrondo. Estou feliz, isso vem coroar um trabalho grande de elaboração. Fui ao subúrbio várias vezes, fiz aula de boxe."

Os óculos de grau de aro grosso de Wyke são trocados pelos de sol sempre no alto da cabeça de Leleco, combinando com a corrente grossa no pescoço - Caruso já disse que uma inspiração foi o pai do jogador Ronaldo, aposentado como o Tufão da novela, e o próprio Ronaldo reconheceu a semelhança. Autor de livros policiais, Wyke é um sujeito contido, que usa a camisa fechada até o último botão; Leleco é pura malemolência.

A rotina não tem sido só de gravações e récitas. Ele ainda faz musculação para manter os braços torneados, anda de bicicleta do Leblon a Ipanema. Para a peça, precisou treinar esgrima.

Avenida Brasil tem 28 personagens, e a carga de texto para decorar é pesada. "Mas é descartável", relativiza. "Ninguém na novela faz teatro. Já a Eliane Giardini (com quem tem feito cenas impagáveis de gritaria, ciúme e despeito) tem formação teatral. É, como o Emílio, uma atriz que abre uma avenida para você evoluir. A química é a mesma."

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