TV pública precisa ser apartidária, diz Paulo Markun

Novo presidente da Fundação Padre Anchieta tenta aproximação com Lula

Agencia Estado

25 de junho de 2007 | 14h19

Paulo Markun oferece ao interlocutor,mas adverte: é o último cafezinho servido na bandeja na sala dadiretoria - agora ele também vai cortar o café. Daqui em diante,só pagando. A sala do presidente também se despede de suasfunções: doravante, tudo funciona em colegiado, todos numa sósala. É parte da blitz de austeridade que o novo presidente daFundação Padre Anchieta, gestora da TV Cultura, anuncia nachegada ao cargo. "O exemplo tem de vir de cima", justifica Markun, 36anos de jornalismo, em entrevista na manhã de quinta-feira, 21.Antes de falar, fez questão de mostrar a nova "geopolítica" dafundação - a sala espartana onde se reúnem os diretores, oschefes de núcleo, a marcenaria, a sala de figurinos e de costura Ele pretende usar o know-how da emissora nas áreas de figurinose cenários e criar centros de formação, em convênios com aSecretaria de Estado da Educação. Os planos já são ambiciosos: em 2008, nas celebraçõesdos 200 anos da chegada da família real ao Brasil, vai sercomposto um pool inédito de emissoras públicas para a produçãode uma série em cinco capítulos. A TV Cultura encabeça o projeto que está orçado inicialmente em R$ 6 milhões.Estado - O sr. já fez um diagnóstico. Qual é onó principal a ser resolvido nessa primeira fase de sua gestão?Paulo Markun - Mais do que a austeridade, há doisaspectos que são relacionados entre si. Aqui era uma TV quetinha uma fundação como seu braço burocrático, e a gente vaiinverter. É uma fundação que tem uma TV como seu braço midiático É óbvio que para o grande público, se fala em Fundação PadreAnchieta, todo mundo conhece a TV e ignora a fundação. E issonão vai mudar. Agora, essa distorção provocava isso que você viuaqui: uma estrutura burocrática muito grande, muito lenta, emuito distanciada da televisão. Não tinha resposta automática, oque é necessário ter, para assegurar suas decisões. Asatividades-meio eram mais importantes que as atividades-fim Onovo modelo de gestão já estou implantando. Que é descentralizar agilizar, reunir em forma de colegiado, e ao mesmo tempo comfuncionamento hierárquico, o que pode parecer um contra-senso.Mas não é assembléia, existe uma hierarquia. Outra coisanecessária é buscar mais investimentos. Estamos fazendo issojunto ao governo do Estado, anunciantes privados e prestadoresde serviços. Para que possamos modernizar, enfrentar adigitalização e ter mais recursos para fazer as coisas.Essa história dos recursos sempreocupou a maior parte do tempo de todos seus antecessores nocargo.O que estou pleiteando, junto ao governo doEstado, à Secretaria da Cultura, é a simples recomposição dosrecursos históricos. No final do governo Alckmin e no primeirodo governo Serra, há uma situação na qual você registra menos R$10 milhões em relação à média do período entre 1999 e 2007. Issofoi compensado pelo aumento de recursos próprios: esforço demarketing, venda de publicidade, de serviços, patrocínio. Querovoltar à série histórica. Não é possível isso. Estouargumentando e tenho condições de explicar o que vamos fazer comesse dinheiro. Vamos melhorar a qualidade do produto. Semqualquer delírio. Tenho o compromisso verbal do secretário JoãoSayad, que interpreta a posição do governo, de que isso vaiacontecer. Isso foi dito aqui na reunião do conselho no qualtomei posse. Isso já dá mais um gás. Mas vou buscar recursos dogoverno federal, apoios e patrocínios, prestação de serviços.O sr. mencionou o governo federal. Jáouvi de outros presidentes da fundação reclamações em relação àatitude do governo com a TV Cultura. O Franklin Martins agora éum canal mais aberto?Tive duas conversas com o ministro FranklinMartins. Nós fomos colegas de TV, temos uma boa relação pessoal.Tudo que tenho ouvido dele, o discurso em relação à TV públicafederal é muito compatível com aquilo que a fundação pratica.Mas ainda é só discurso, temos de esperar para ver. Mas emrelação à distribuição de verbas federais para as TVs públicas,ele e o presidente Lula já assumiram, no Fórum da TV Pública,que será diferente de agora em diante.Há um estigma de que as TVs públicassão partidarizadas. A Cultura recebe cerca de R$ 80 milhões dogoverno estadual, é ligada portanto ao governo. Qual é o grau deindependência possível nessa relação?Com relação a episódios do passado, eu possofalar só pelo Roda Viva. E tenho orgulho da maneira como (oprograma) se comportou. De modo geral. Pode ter, ali e aqui,havido algum tipo de deslize. Mas eu acho que foi equilibrado,mesmo na cobertura da crise, do mensalão. Não posso falar peloresto, porque não participei das decisões. Com relação àautonomia e independência da fundação, isso tem de serassegurado pelo conselho, que tem apenas um terço derepresentantes do governo de São Paulo. A esse conselho, euapresentei uma plataforma, que previa que vamos cumprir o queestá na Constituição: que a televisão tem de ser apartidária,distante de grupos políticos, religiosos, culturais, etc. Confionas informações do secretário, que transmite a posição dogovernador, que não terá nenhuma interferência. O sr. já teve uma conversa com ogovernador Serra?Estive com ele, publicamente, na ViradaCultural. Conversamos rapidamente, eu já era o candidatoindicado, tive todo o apoio dos conselheiros que são ligados aogoverno. Mas não houve conversa particular nenhuma. Vou pediruma audiência para ele para tratar das questões institucionais,mas quero chegar a ele com uma proposta muito clara. Não setrata de oferecer nada para o governo, mas para a sociedade.Essa idéia da construção da TV pública é muito antiga, é umabatalha. Não terminou. Muitas vezes há setores, dentro dogoverno, que encaram assim: "Mas aquilo ali é nosso, somos nósque pagamos." Primeiro, é que hoje em dia é apenas 50% dosrecursos, acho que tem de ser mais. Depois, que isso não é dogoverno, é da sociedade. Não é uma área de oposição a qualquergoverno, mas a favor do cidadão, da cidadania. Recebemos cartas no jornal de leitoresque acham que certo tipo de publicidade descaracterizou a TVCultura. Como vê essa questão?Nós não vendemos audiência, nós vendemos umacausa, que é ajudar a TV Cultura. Nesse processo, em razão atémesmo das dificuldades de recursos, em certos momentos acho quea TV pode ter ido com muita sede ao pote, anunciar produtos quenão têm a ver. Precisamos aperfeiçoar o modelo que vigora, parabuscar uma definição mais clara.A minissérie "A Pedra do Reino", naRede Globo, levantou uma discussão sobre como se deve avançar nabusca da qualidade na linguagem da TV. O sr. viu a série?Não vi a série, infelizmente. A Globo, em maisde uma ocasião, já fez projetos, quase sempre com o mesmodiretor, de qualidade excepcional. Acho que ela dá umacontribuição à cultura brasileira quando faz isso. Só gostariaque isso acontecesse também aqui, e não só lá. Acho que já estáacontecendo. É o caso do projeto Direções, com supervisão doAntunes Filho. A Cultura sempre foi um espaço de ousadia einovação. De um tempo para cá, ela perdeu um pouco isso, talvezbuscando melhores resultados de audiência, não sei. O que tenhousado como mantra é o Artigo 3.º do Estatuto: contribuir para aformação crítica do homem e o exercício da cidadania. Senão agente perde o rumo. No ano que vem, vamos intensificar a buscada inovação, da ousadia, mesmo com risco de errar.Audiência não é uma preocupação sua? Nunca?É preciso buscar a maior amplitude de públicopossível, mas dentro da missão. O Vlado (Vladimir Herzog) e oFernando Jordão tinham uma frase: "Que adianta fazer uma TV queninguém vê?" Não adianta. Mas também que adianta fazer uma TVque é exatamente igual à TV comercial? Também não adianta.Cancelei o Sumo TV porque não tem a ver com o escopo do nossoprojeto, que não é meu, é do estatuto da fundação. Se a fundaçãoincorporar esse conceito, e o guardião disso é a direção, ficatudo mais fácil. Outra imagem clássica da TV pública éque é um cabide de empregos. Suas primeiras medidas parecemcorroborar isso: cortou cargos, demitiu. O sr. acha que a TVCultura está gorda? Com certeza não está no ponto. O que eu nãotenho dito, me posicionando irresponsavelmente, é avaliar oquanto, aonde está gorda e como fica mais magra. Avaliar o corpotodo que está aqui. Tenho alguma experiência na vida privadacomo empresário, e muita, como jornalista, de acompanhar oprocesso de cortes. Em muitas delas, esse corte é feito a partirde um porcentual, 10%, 20%, e aí se corta indiscriminadamente.Aqui há pessoas de talento, de extrema competência, muitas delassubutilizadas; e também pessoas e setores que já poderiam estaraposentados. Precisamos saber qual o projeto, que pessoasprecisamos. As iniciativas que tenho tomado, nesse primeiromomento, é dar o exemplo de cima para baixo. Aqui, na chamadaalta administração, que é um termo horrível, você tem condiçõesde ser mais ágil, mais eficiente, com menos gente.

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