TV pública é item em falta aqui

Televisão Pública: Para Quem e Para Quê, livro de Teresa Otondo, sustenta omissão do País com tema

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h10

Ter uma BBC é o sonho de consumo de todo país desprovido de uma televisão pública eficiente, mas o Brasil está longe de alcançar o modelo britânico. Autora do livro Televisão Pública: Para Quem e Para Quê, a jornalista e pesquisadora Teresa Otondo sustenta que o Brasil não tem até hoje uma televisão que se possa chamar de pública, apesar dos esforços de TV Cultura e TV Brasil.

No entender da pesquisadora, que trabalhou na emissora da Fundação Padre Anchieta e estuda o assunto há anos, tendo feito dele um doutorado sobre televisão pública na América Latina, pela USP - origem do livro -, o que se tem no Brasil é o modelo de televisão estatal, ou seja, a verba que sustenta esses canais, um ligado ao Estado de São Paulo e outro à União, passa pelo caixa de seus respectivos governos. Mal se discute, aqui, a ideia de deixar esses recursos a cargo de um cofre independente, como acontece no caso da BBC.

"Fui trabalhar na TV Cultura depois de 25 anos de Estado", conta Teresa, que esteve no Grupo Estado desde o número zero do vanguardista Jornal da Tarde, nascido em 1966. "O livro reflete m pouco a minha história. Sempre me preocupou muito a questão da responsabilidade social da mídia."

Teresa esteve na Cultura por dez anos, em um bom período da emissora, durante a gestão de Roberto Muylaert à frente da Fundação, e lá criou uma assessoria de relações internacionais para conhecer outros modelos de gestão de TV pública pelo mundo. Vem daquele período a produção do mais bem-sucedido produto da história da TV Cultura: com efeito educativo e divertido, o Castelo Rá-Tim-Bum chegou a registrar médias de 14 pontos de audiência em São Paulo.

E se o brasileiro foi habituado a crer que sua televisão é "pública" e "gratuita", a jornalista lembra que não é bem assim. O dinheiro que sustenta a TV Brasil e a TV Cultura sai, afinal, do bolso do contribuinte, sem que esse se sinta motivado a cobrar resultados por isso e alguma independência política na linha editorial de tais canais.

"A Cultura e a TV Brasil têm uma conceituação de televisão pública, mas uma prática, a meu ver, incompleta: se é um bem público, deve ser acessível a todos e deve servir a todos, não pode servir aos interesses de um governo. O cidadão já paga por isso, temos que dar poder e voz ao cidadão para que ele possa expressar as suas demandas, ouvir e ser ouvido."

A autora cita a Constituição Brasileira para questionar por que a televisão pública não foi devidamente regulamentada até hoje no Brasil. "O sistema comporta três tipos de televisão: a pública, a privada e a estatal. Estatal e privada nós temos na prática e na legislação, na sua existência. A pública, não."

O livro passeia pelos modelos da BBC (que administra e presta contas à população sobre as taxas pagas pelo contribuinte diretamente a um fundo mantido pela emissora), da PBS, nos Estados Unidos e da TVN, a Televisão Nacional do Chile, entre outros. O sistema da BBC, ressalta Teresa, na qual a taxa não passa pelas mãos do governo, impede que um eventual imposto pago à televisão pública aqui tenha, por exemplo, um destino infeliz como a CPMF, taxa criada pelo ex-ministro Adib Jatene para atender às demandas da saúde, mas que era utilizado em quase sua totalidade para outros fins.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.