TV paga exibe filme sobre amante de Bolívar

O Cinemax continua apresentando, em primeira mão, filmes de vários países da América Hispânica. A atração de hoje, às 22 horas, A História de Manuela Saénz, de Diego Rísquez, chega da Venezuela. No centro da narrativa deste épico histórico, encontra-se uma mulher, a equatoriana Manuela Saénz. E isto acontece por duas razões: jovem, ela tornou-se amante de Simon Bolívar, o Libertador; e, já idosa, foi procurada por um curioso marinheiro, Herman Melville, autor de Moby Dick.O ponto de partida de Diego Rísquez, de 52 anos, em seu quinto longa-metragem, é justamente o encontro de Manuela com o marinheiro norte-americano. Aos 37 anos, Melville (que só seria reconhecido postumamente) já havia publicado Typee (1846), Omoo (47) e Moby Dick (1851). Em 1856, ele fora dar com os costados no litoral peruano (num navio baleeiro, que atracou no Porto de Paita). Lá vivia, desterrada e paralítica, a mulher que, durante oito anos, privara da intimidade do general Bolívar. E que recebera (dele) a função de "guardiã de documentos", além do título de coronela. A história é narrada do ponto de vista de Manuela Saénz, interpretada pela bela atriz cubana Beatriz Valdés. Vinte e seis anos depois da morte de Bolívar, uma Manuela envelhecida e delirante conversa com Melville, enquanto a peste vai dizimando os moradores do porto de Paita.A moça, nascida em Quito, no alvorecer do século 19, começa a relembrar sua vida. Jovem e bela, a família a obrigara a se casar com James Thorne, rico comerciante inglês, bem mais velho que ela. Em 1822, num baile, conhece Bolívar (interpretado pelo ator Mariano Alvarez). Os dois se apaixonam. Manuela abandona o marido e vai privar da intimidade do general, libertador da Venezuela e de Nova Granada, territórios que compunham a Grande República da Colômbia. Ele, que assistira à coroação de Napoleão e passara por Espanha e Itália, comandava sua República, enquanto desfrutava de sua fogosa amante e sonhava com a unificação da América Latina.Ao abandonar o marido e ligar-se a homem tão poderoso, Manuela atraiu para si as mais ferrenhas críticas. Era chamada de adúltera e rameira pelas mulheres, chocadas com suas atitudes, e despertava ódio nos generais que cercavam Bolívar.O filme abandona Melville (interpretado por Erich Wildpret) para centrar-se nos oito anos em que Bolívar e Manuela estiveram no centro das atenções. O general, que morreria em 1830, aos 47 anos ("de tristeza, pois esta é doença que mata os grandes heróis", segundo um personagem secundário do filme), perdera o poder e vira ruir seu sonho de uma América unificada. Sua amante, a coronela Manuela Saénz, fora desterrada para um canto perdido do Peru.Afresco histórico - Diego Rísquez é apaixonado pela figura do Libertador. Em 1980, ele causou sensação em Cannes com seu primeiro longa-metragem, Bolívar: Sinfonia Tropikal. Detalhe, o filme chegou ao festival francês em super-8. E cercado de curiosidade, já que custara apenas US$ 12 mil."A receptividade foi tão grande", relembra Diego, por telefone, de Caracas, "que consegui mais US$20 mil para ampliar o filme. Um laboratório na Califórnia fez o serviço e, pela primeira vez na história, um mesmo filme retornou à Quinzena de Realizadores de Cannes. Em 1980, como super-oito. Em 81, em 35 mm."Apaixonado por Glauber Rocha ("temos em comum a paixão pela geografia e história de nossos países" e, pode-se acrescentar, pela letra "K"), Diego Rísquez se define como um realizador empenhado na realização de "um grande afresco histórico da Venezuela". E, neste afresco, Simon Bolívar tem lugar nobre e cativo. O cineasta conta que "a Venezuela estava na vanguarda do cinema super-8", no final dos anos 70. "Eu não tinha dinheiro para fazer um longa em 35 milímetros. Como não queria me colocar como mais uma vítima do Terceiro Mundo, fiz um épico histórico em super-8. Os atores trabalharam de graça, num verdadeiro mutirão. E o resultado foi compensador, pois com um filme que custou apenas US$ 32 mil representei a Venezuela em duas edições do Festival de Cannes." O segundo (Orinoko, Nuevo Mundo/1984) e terceiro (Amerika, Terra Incógnita/1988) longas de Diego Rísquez sequenciaram trilogia sobre a história e geografia do subcontinente. Em 1994, ele dirigiu Karibe con Tiempo. Em 2000, fez História de Manuela Saénz, seu filme mais caro (US$ 1 milhão).Para ajudá-lo, o cineasta (que é também ator e diretor de arte) convocou o fotógrafo polonês Cesary Jaworski, radicado há 15 anos em Caracas. "Juntos", conta Rísquez, "optamos por dois tempos cromáticos. Um para o passado (os oito anos em que Bolívar e Manuela viveram juntos), outro para o presente (ela, no Porto de Paita, relembrando sua história para Melville)." Diretor e fotógrafo abriram mão do preto-e-branco ou sépia para narrar as cenas do passado.Diego Rísquez diz que o encontro entre Manuela Saénz e Herman Melville constitui "fato histórico comprovado". Mas que dele não sobrou um livro, nem sequer um artigo de jornal. "Não sabemos o que eles conversaram. Meu filme ficcionaliza o encontro dos dois." Vale lembrar que o "Homero do Pacífico" só seria reconhecido como grande escritor, um dos maiores do século 19, depois de sua morte, aos 72 anos.

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