TV* NO CALOR DA HORA

Regina Casé estreia 2.º ano do Esquenta! e nega privilégio à classe C

ALLINE DAUROIZ, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h09

Há 20 anos, quando Regina Casé começou a levar os movimentos populares das ruas para a TV, no Programa Legal (Globo), ela não sabia, mas estava na vanguarda. Agora, porém, quando o mercado faz tudo para agradar a classe C, Regina evita o rótulo de visionária. "Eu não estava à frente do meu tempo. Sabe onde eu estava? Na real", diz a atriz e apresentadora que, hoje, às 13h55, estreia a 2.ª temporada do Esquenta!, seu show de auditório na Globo.

"Coloca isso na sua matéria: fica essa ideia de que estamos fazendo um programa pra classe C. Mas eu faço isso há anos. Sempre estive na rua, na favela, viajando pelo interior do Brasil. Não tentava agradar a esse público. Só estava lidando com o que eu via. E, agora, também não estou correndo atrás da classe C."

Ainda que o clima seja de churrasco na laje e que a plateia, bem popular, sem limite de idade nem modelos contratadas na primeira fila, Regina vê seu programa como uma grande festa, com gente de todo tipo. "A vocação da TV aberta é tentar falar com todo mundo, e não segmentar. A gente quer falar com o pobre, com o rico, com o gay, com o Nordeste, com o Rio, com São Paulo, com criança e com velho de 80 anos", diz Regina. "Até porque, uma festa que só tem velho ou só criança ou só gay, é chata."

Assim, numa grande mistura sem regras, a apresentadora junta funk, forró, tecnobrega, sertanejo, pagode e, claro, samba, ritmo que reina nos domingos do Esquenta!, com a roda fixa dos compositores Arlindo Cruz e Leandro Sapucahy, que permanecem nesta 2.ª safra.

Carioca que só, Regina também gosta de afirmar que ela e sua trupe não contemplam apenas atrações e comunidades do Rio no show. Tanto que, hoje, o tema do programa é o "pagonejo" - pagode com sertanejo -, com os paulistanos da Turma do Pagode e os sul-mato-grossenses Maria Cecília & Rodolfo.

"Só porque é feito no Rio, as pessoas têm mania de dizer que o programa é carioca. Mas tem dia que é só a gente de carioca (risos)", diz. A apresentadora lembra que já subiram ao palco o grupo Exaltasamba, do ABC; Alcione com o bumba meu boi do Maranhão; Gaby Amarantos e o tecnobrega do Pará, a congada de Minas Gerais, o grupo Psirico, da Bahia, entre outros convidados, sucessos de bilheteria pelo País. E a miscelânea também toma conta da plateia.

"Digo que ali é igual a festa na minha casa. Todo mundo eu conheço - ou porque já entrevistei a mãe, a tia ou porque fui ao bairro. Não tem modelo contratada na primeira fila", afirma, sobre o que acontece em outros programas da casa. "A gente não convida ninguém e tenta encaixar todo mundo que quer ir."

Visionária. Originalmente pensado para os meses de janeiro a março, o Esquenta! estreou com bons 17 pontos de média no Ibope, mas, no decorrer dos três meses no ar, caiu em audiência e se consolidou no patamar do horário, com 12 pontos (na Grande São Paulo, sendo que cada ponto corresponde a 58,2 domicílios).

O Esquentão!, episódio especial de São João, voltou a registrar 17 pontos, o que animou a emissora e garantiu vaga para o programa na grade de 2012. E com prestígio: um mês a mais no ar, até o dia 1.º de abril.

"Depois da primeira temporada, a Globo pediu para que eu fizesse programa o ano todo. Mas eu não quis. Queria que o programa chamasse Regina de Janeiro, Fevereiro e Março, como na música", lembra. "Até porque o programa foi feito pra esta época do ano, de festa. Perde a graça fazer festa o ano todo. Ele tem de deixar saudade."

Mais à vontade no papel de animadora de auditório, Regina confessa que, por estar acostumada a fazer programas nas ruas, tinha receio de mudar para o estúdio.

"Sou da rua, da favela, do Maracanã, do Mercadão de Madureira. Achava esquisito aquele ar refrigerado, a plateia ensaiada", diz. "Tinha muito medo disso, e por isso demorei tanto (pra ter um programa de auditório). Mas, um dia a gente tem de tomar coragem. E nossos convidados mantêm o clima do pagode."

Consolidar-se no tradicional dia de domingo na TV é um mérito e, sobre isso, Regina diz que a escolha de o programa ter temporadas também foi uma maneira de "pegar leve" e "chegar na humildade" em um dia que faz frente a nomes como Silvio Santos, Faustão e Gugu.

"Sou boa comunicadora. Poderia ter um programa igual ao do Chacrinha", chegou a declarar à imprensa em 1999, quando fazia o Muvuca. A julgar pelo colorido e pela anarquia no ar - e guardadas as devidas proporções -, talvez ela esteja no caminho.

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