TV mostra Plínio Marcos no cinema

Não vi A Rainha Diaba porque nãovou ao cinema. Aliás, não vou a nenhum lugar onde não possafumar. No fim dos anos 70, num debate com universitários, PlínioMarcos, autor da frase e tabagista militante, deixou a platéiaintrigada. Estaria brincando ou falando sério? O dramaturgo,afinal, não teria visto o mais badalado dos filmes que traz seunome nos créditos? Antônio Carlos Fontoura, diretor do thrillerpop gay A Rainha Diaba, assegura que Plínio viu o filme.Fiz sessão especial para ele, na cabine da antiga Líder, emque era permitido fumar. Foi em 1974 e, na ocasião, ele reagiumuito bem. A história, portanto, traz meia-verdade. O filme foivisto, mas em local onde Plínio podia fumar. Passados 29 anos dasessão na cabine da Líder, o que importa, agora, é que o públicoveja, a partir de amanhã, e em mais cinco quartas-feiras, noCanal Brasil, seis dos mais importantes trabalhoscinematográficos do dramaturgo santista. Além da Diaba, noqual assina argumento e diálogos, serão exibidos BetoRockefeller, de Olivier Perroy (no qual Plínio foi ator),Barra-Pesada, adaptação do livro Nas Quebradas da Vida,e três recriações de suas peças, Navalha na Carne e DoisPerdidos numa Noite Suja, ambos de Braz Chediak, e Barrela,Escola do Crime, de Marco Antônio Cury. Ficam de fora Geraldo Filme, documentário de CarlosCortez, em que Plínio aparece em hilário depoimento sobre suasaprontações com o sambista paulistano; Navalha na Carne, deNeville D´Almeida; e Dois Perdidos numa Noite Suja, de JoséJoffily. Mas, em compensação, o Canal Brasil preparou umdocumentário inédito, de 45 minutos, dentro da série RetratosBrasileiros, para relembrar a trajetória cinematográfica dePlínio Marcos (1935-1999). Amanhã, depois do Retrato Brasileiro do dramaturgo(23h), será exibido Dois Perdidos, que Braz Chediak realizouem 1970, com produção da Magnus Filmes, de Jece Valadão, naesteira da boa receptividade de Navalha (1969). Tonho e Pacosão dois pés-de-chinelo que trabalham no mercado municipal. Elesvivem num pardieiro. Tonho se desentende com um carregador e éhumilhado. Paco aproveita da situação para humilhar ainda mais ocompanheiro. Ao saber que Tonho tem um revólver, Paco propõe querealizem um assalto. Tonho recusa, mas Paco não desiste. Doembate entre os dois se constrói a narrativa, até o desfechotrágico, bem ao gosto de Plínio: Tonho usa o revólver paraobrigar Paco a servir a ele, como mulher. O resultado de Dois Perdidos é bom. O de Navalha(dia 19) é melhor ainda. Principalmente por causa da intérpreteda prostituta Neusa Suely, a densa e trágica Glauce Rocha. Aatriz dá um show ao contracenar com seu cafetão, Vado (JeceValadão, o cafajeste dos cafajestes) e com o faxineiro Veludo(Emiliano Queiroz). Os três brilham, em perfeita sintonia. Afotografia de Hélio Silva, em poético preto-e-branco, favorece orosto trágico de Glauce. A trama gira em torno de Neusa Suely, que deixa granapara Vado em cima do criado mudo. O dinheiro desaparece. Osuspeito é Veludo, que pegou os trocados para dar para rapazinho por quem está siderado. Até tudo se esclarecer, os trêspersonagens mergulharão fundo nas dores e miudezas de suasvidas. O segundo programa do festival é Barrela (dia 12), deMarco Antonio Cury (1949-1997), montador que dirigiu apenas estefilme. E o fez no momento em que o cinema brasileiro estava nofundo do poço. Em pleno governo Collor, com a infra-estrutura deprodução cinematográfica desmantelada, Marcelo França mobilizouCury e atores de enorme qualidade (Claudio Mamberti, Paulo CésarPereio, Chico Diaz, Antônio Pitanga, Cosme dos Santos, DavidPinheiro, Marcos Palmeira, Roberto Bomtempo e Elisa Lucinda)para, em processo cooperativo, recriar o texto de PlínioMarcos. A ação se concentra em cela de sórdida cadeia. Umrapazinho muito bonito (Marcos Winter) chega e transforma-se noobjeto de cobiça de um grupo de detentos. O filme, prisioneirode sua origem teatral, não está à altura da peca que Plínioescreveu na juventude (1958), mas chama atenção pela qualidadedos atores, preparados por Claudio Mamberti. Barra-Pesada, sexto longa-metragem de ReginaldoFaria, será exibido no dia cinco de março. O filme, lançado em1977, é a primeira adaptação de Querô, história que CarlosCortez se dispõe, agora, a refilmar. O protagonista do filme doclã Faria é Stepan Nercessian. Ele interpreta Querô, pivetenascido num prostíbulo, filho de mãe suicida (ela morreu tomandoum litro de querosene). De herança, deixou o incômodo apelidopara o menino. Beto Rockefeller, primeiro dos quatrolongas-metragens de Olivier Perroy, realizador suíço-brasileiro,encerra o festival no dia 12. Nele, Plínio Marcos repete, comoator, o papel que o consagrou na TV: o mecânico Vitório, amigodo bicão Beto Rockefeller (Luiz Gustavo na TV e no cinema). Ofilme usou a novela de Bráulio Pedroso como ponto de partida. Odramaturgo Cassiano Gabus Mendes escreveu o argumento e Perroy,o roteiro final. O elenco do filme traz alguns dos maiores nomes doteatro paulista: Lélia Abramo, Cleide Yáconis, Raul Cortez,Walmor Chagas e o falecido Otelo Zeloni. O time estelar circundao bicão metido a playboy, Beto Rockefeller, em festa demilionários em ilha paradisíaca, perdendo 6 milhões (que ele nãotem) na roleta e se envolvendo com mil mulheres. Plínio, que nãotinha paciência para decorar as falas de seus personagens,acabou tendo curta atividade como ator. Quem ganhou com isso foia dramaturgia brasileira.Serviço - Retratos Brasileiros. Amanhã, às 23 horas; Festival Plínio Marcos: Dois Perdidosnuma Noite Suja. Amanhã, às 23h45. TV Cultura e Arte(operadoras e Canais: TVA, 16; TECSAT, 4; SKY, 26; Directv,237)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.