TV lança moda e vira assunto do dia

Minha avó tinha uma expressão que usava com desprezo: inventar moda. A idéia era: se uma coisa funciona, por que inventar outra, talvez engraçadinha, mas desnecessária? É claro que o espírito dela, nascida no fim do século 19, era conservador. Mas às vezes penso nisso, quando vejo como a TV cria ou lança modas. A maior característica delas é que surgem de repente, e pegam como fogo em pólvora seca. Quem diria, três anos atrás, que uma emissora em decadência - a Band - iria emplacar dois ícones sexuais, Tiazinha e Feiticeira? Tiazinha perdeu espaço, mas as duas, somadas, não largaram as capas de revistas, montando um forte imaginário erótico - e que não atinge só os homens. Também há expressões que pegam. Um dia um torcedor gritou no Maracanã, nem sei mais diante do quê: "Ah, eu tô maluco!" E a expressão se difunde pelo País. Os distraídos nem sabem de que se trata. Essa é outra característica da moda. Ela triunfa depressa, e cria excluídos. O excluído da moda fica meio ridículo. Há um caso célebre. Na novela O Astro (1977), o suspense gira em torno de quem matou Salomão Hayala. Pois um dia o ex-ministro Severo Gomes - que se batia heroicamente pela democratização - viu numa banca de jornal a pergunta "Quem matou Salomão Hayala?" e não tinha idéia de quem era. Obviamente o excluído - no caso, um homem culto e poderoso - nem imaginava que Hayala fosse um personagem, não uma pessoa. Uma invenção da TV, não uma realidade. Mas com isso ele ficava à margem de muitos assuntos. Eis a questão: a TV dá à sociedade uma pauta, uma agenda de conversa. Conversar: uma das grandes questões num mundo como o atual, em que constantemente cruzamos desconhecidos, é ter assunto. Isso vai da conversa social, na ante-sala do dentista, até a paquera bem ou mal intencionada. Não errarei se disser que metade, pelo menos, dos assuntos que dão certo com estranhos vêm da televisão. Vale lembrar que a idéia de conversar com um estranho é relativamente nova. Ela não existia quando a maior parte das pessoas convivia com gente da mesma aldeia ou grupo, e todo mundo se conhecia desde pequeno. Se surgia um desconhecido, era apresentado por parente ou amigo. A conversa nasce, mesmo, entre os séculos 17 e 18. Franceses, ingleses e italianos disputam a invenção da conversa. Porque ela (incluindo o papo furado, a conversa mole) é uma arte, uma técnica brilhante e bem treinada, pela qual consigo fazer passar o tempo com agrado, travar novas relações, eventualmente conquistar vantagens. Um negócio pode ser obtido, se sei conversar - basta ver esses jovens banqueiros tucanos, simpáticos, cultos, inteligentes. Dica: por que não ver a TV, pensando nos assuntos que ela dá para a prosa nossa de cada dia? Há revistas - algumas das chamadas "masculinas" - que dedicam seções inteiras a indicar assuntos que impressionem as mulheres. O interessante é descobrir quais assuntos pegam, e quais não. Mas isso é assunto para outra vez.

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