TV: geração de olho no mundo, mas perdida em casa

Beatriz Colombo, de 14 anos, adora TV. Com os dois pais trabalhando fora o dia todo, e a irmã no cursinho pré-vestibular, a televisão e o rádio ligados são uma companhia constante nas idas e vindas entre colégio, curso de inglês, teatro e ginástica. Tanto, que mesmo quando fica ao telefone com uma de suas amigas, eles estão lá, causando brigas posteriores com o pai por causa do valor da conta de energia elétrica. O administrador de empresas Paulo Coloni, 23 anos, faz a mesma coisa, mas admite que precisa deixar o volume do televisor abaixado. Já quando precisa ler (jornais de economia e revistas semanais são seus preferidos), não tem dúvida: a TV fica lá, ligadona. E sem telefone ele não vive. "Sinto-me meio desprotegido sem meu celular." Conseguir prestar atenção (ainda que precariamente) em duas coisas ao mesmo tempo e estar acostumado com um fluxo constante de informações são características que distinguem os jovens das grandes cidades brasileiras, segundo pesquisa realizada pelo canal de música MTV, divulgada na quarta-feira. Essa nova geração, que tem entre 12 e 30 anos e, portanto, nascida durante a consolidação do parque industrial brasileiro, lida confortavelmente com a tecnologia: 99% dos jovens assistem à TV e usam o telefone regularmente; 98% ouvem rádio com freqüência; 80% lêem jornais (embora a grande maioria admita que só lê o que lhe interessa) e uma parcela menor (34%) acessa a Internet, que é vista com um pouco de impaciência por conta da lentidão de acesso. A atenção é retida apenas por poucos instantes, a ponto de fazerem o que os realizadores do estudo chamaram de "total zapping": os jovens não passam mais que alguns instantes atentos ao mesmo estímulo. "O que mais me impressiona é como eles conseguem digerir tudo isso", se assombra a professora de História Sônia Colombo, 49 anos, mãe de Beatriz. "Eu acho que eles são privilegiados." Nesse cenário, é natural que o espaço familiar seja desvalorizado: 63% dos entrevistados preferem ver TV em seus quartos do que na sala, com os pais, porque querem ficar com o controle do que assistir. Negociar com o resto da família sobre o que assistir é complicado. Antigamente um aglutinador familiar, os meios de comunicação agora isolam as pessoas. "Agora que a TV da cozinha quebrou, a gente conversa mais durante o jantar", conta a menina. Informação x conhecimento - O filósofo Mário Sérgio Cortella, que participou da apresentação do estudo, faz ressalvas a esse fluxo de informações. "O jovem parece que está sempre de partida, eles não podem parar." Isso causa, de acordo com ele, a confusão entre informação e conhecimento. "O conhecimento é a informação que se retém, que é apropriada pela pessoa. A pressa não dá tempo para que isso aconteça." Ao contrário dos mais velhos, que às vezes podem se sentir sobrecarregados, o excesso de informações parece não causar agonia aos jovens, e sim o contrário. "Eu não tenho agonia de ler muito; eu tenho agonia porque não dá tempo de ler tudo que quero", afirma Coloni. Precisar da TV para não se sentir sozinho, precisar de um ruído constante, precisar de uma informação nova a cada meio minuto, tudo isso são sinais preocupantes porque revelam uma atitude compulsiva destes adolescentes e adultos. "E toda compulsão, seja qual for, é uma tentativa de controlar uma grande angústia", observa Ivan Capelatto, psicólogo com 25 anos de experiência em tratamento de crianças e adolescentes. Ou seja: para o especialista, a pesquisa reforça a percepção de que há uma geração - ou mais - de pessoas com sérias dificuldades emocionais. Mas o problema maior está no "antes" e no "depois" desta compulsão midiática da moçada. O "depois" é inquietante: como a compulsão não resolve a angústia, e esta se acumula ao longo dos anos, abre-se um caminho muito perigoso. "É o que vemos hoje, com o aumento constante dos casos de depressão e consumo de drogas, o comportamento de risco se tornando mais comum, as idéias suicidas e a psicose em pessoas com estrutura emocional mais frágil." O que vem antes desta compulsão, segundo Capelatto, também preocupa por demonstrar que estes jovens não se tornaram capazes de administrar a angústia natural. "A angústia é da essência humana, e precisa ser canalizada desde a infância com a ajuda dos pais, dando condições para que a criança aprenda a desejar e a esperar pelo momento prazeroso de conseguir o que quer", explica. "Assim é que a angústia se transforma em sonhos, em arte, trabalho, é ela que cria a cultura, quando canalizada." Cortella completa: "Perdeu-se a arte do diálogo. Se acontece um blecaute, a família não tem mais o que fazer e vai dormir. A idéia de paz para esses jovens é ser deixado sozinho com os meios de comunicação, estamos criando uma geração de egonarcisísticos." Sem stress - A professora de música Eva Batista, 51 anos, baixou um decreto em casa: nada de TV na cozinha e no quarto dos dois filhos, de 16 e 18 anos. "Se não, ninguém conversa!", argumenta ela. Na casa dos Batista, em Alphaville, condomínio de luxo nos arredores de São Paulo, quem manda no controle remoto é o pai. "Se eu estou assistindo TV e ele chega, eu já passo o controle para ele", conta o caçula, Olavo. Para o menino, isso não é problema. "É claro que eu preferiria escolher o que quero assistir, mas não faz diferença." A briga é mesmo entre a mãe e os homens da casa. "O problema é comigo. Eles querem ver futebol, luta de boxe. Sou eu que acabo tendo que me mudar." Eva diz não entender como seus filhos conseguem estudar ouvindo música, principalmente o rock pesado preferido de Olavo. O menino diz achar isso natural, mas admite que a proeza de assistir à TV enquanto fica no telefone não é seu forte: "Acabo não prestando muita atenção na TV, mesmo." A professora concorda que seus filhos parecem ter dificuldades de concentração".

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