TV exibe hoje inédito de Martin Scorsese

Martin Scorsese tinha 6 anos quandocomeçou a ver filmes italianos. Morava em Elizabeth Street, naLittle Italy de Nova York. Ficou impressionado ao constatar comoseus pais e avós, imigrantes sicilianos, se emocionavam ao veras imagens e ouvir o dialeto de Paisà e A Terra Treme,clássicos do neo-realismo que passavam na televisão nassextas-feiras à noite. Assim, o futuro cineasta cresceualimentado pela substancial proteína do cinema italiano doapós-guerra, um dos melhores que se fizeram no mundo. Essahistória, ele conta na abertura do documentário Il Mio Viaggioin Italia, que a TV exibe hoje, no canal pago Cinemax,às 22 horas. Esse passeio de quatro horas pelo cinema italiano entreos anos 40 e 60 foi exibido pela primeira vez no Festival deCannes de 2001. Passou aqui no Festival do Rio do ano passado epermanece inédito no circuito comercial. Vai direto para a TVpor assinatura. O formato é o de uma grande aula, uma espécie demaster class ministrada por um dos melhores diretores de cinemado mundo. Com a vantagem adicional: nunca, jamais, nem empensamento, Scorsese assume ar professoral. Pelo contrário,desde o início faz questão de sublinhar sua relação emocionalcom os filmes que comenta.Por isso, as primeiras imagens o mostram no alto de umprédio em Nova York de onde se vê a rua de sua infância. Emseguida, ele apresenta algumas cenas de filmes domésticos, nasquais aparecem seus pais e avós, amigos da família, as ruas, ocomércio, as festas, etc. Enfim, toda uma série de cenasdocumentais sobre os imigrantes italianos na Nova York do fimdos anos 40, quando o futuro diretor de Táxi Driver, TouroIndomável e Os Bons Companheiros era ainda um garotinho. Esse tom familiar determina o modo terno de Scorseseanalisar as obras. Não são apenas filmes - são amigos íntimos.Por isso,depois de feita a introdução, o que se vê na tela são as imagensdesses clássicos e, aqui e ali, a voz off de Martin, comentando,destacando o caráter de um personagem, um detalhe técnico defotografia ou montagem, alguma figura ao fundo em que não secostuma reparar mas cuja presença é indispensável para acomposição do quadro. Scorsese tem bons motivos para alimentaresse caso de amor bem correspondido - ele atém-se à melhor parte ao filé mignon do moderno cinema italiano. Seu ex-sogro RobertoRossellini (Marty foi casado com a atriz Isabella Rossellini) éfigura central com a trilogia da guerra: Roma - Cidade Aberta,Paisà, Alemanha Ano Zero, mas também com os extraordináriosStromboli e Viagem à Itália - este último parafraseado notítulo do documentário. Partindo de Rossellini, Scorsese dispõe de excelenteposto de observação para acompanhar a linha evolutiva do cinemaitaliano até os anos 60. Afinal, dessa que é a figura-símbolo doneo-realismo, todos são, em medidas diferentes, devedores. Opróprio Rossellini toma caminho distinto em Stromboli eViagem à Itália, enfatizando a relação entre personagens e omeio ambiente estranho, às vezes hostil. Em Viagem à Itália,temos quase um documentário sobre Nápoles e Pompéia, enfim sobreaquele patrimônio cultural milenar da Itália. E justamente o queafeta a personagem de Ingrid Bergman é esse peso da História, aprofundidade que ganham os temas do amor e da morte em terrasque dispõem de uma larga Antigüidade atrás de si. Scorsese segue emocionado, os passos de Ingrid, até o momento em que elasucumbe diante da figura dos amantes calcinados em Pompéia. Acena é uma epifania e como tal é registrada. Nessa passagem, Scorsese mostra como Rossellini sabe sermeditativo, sem perder a emoção, o que é arte rara e objeto dedesejo de dez entre dez cineastas. Fellini, por outro lado,também ele uma cria do neo-realismo, coloca ênfase maior nolirismo. Visconti, o outro ramo da família, não esconde suasorigens no teatro e na ópera, e Antonioni, mais um membro doclube, alcança seu melhor resultado na contenção emotiva e naanálise cerebral dos personagens. E assim vamos de obra em obra,quase sem transição. Passamos de Viagem à Itália, de Rossellini,para Os Boas-Vidas e depois A Doce Vida e 8 1/2, deFellini. De A Terra Treme a Sedução da Carne, de Visconti, aLadrões de Bicicletas e Umberto D, de Vittorio De Sica. Atéchegar à magnífica trilogia da solidão de MichelangeloAntonioni: A Aventura, A Noite, O Eclipse. Scorsese fala de um cinema maduro e profundo. Il MioViaggio in Italia é sua homenagem e também sua maneira deconfessar que, sem esse cinema, ele não seria o diretor que é.Serviço - Il Mio Viaggio in Italia. De Martin Scorsese. Amanhã(07), às 22 horas. Cinemax (canais/operadoras: TVA, 49; Directv,531)

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