TV e cinema deram fama a personagens criados por Suassuna

Em 1955, 'Auto da Compadecida' projetou nacionalmente seu nome

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 18h25

Ele foi o idealizador do Movimento Armorial, criado com o objetivo de desenvolver uma arte erudita com elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. Para isso, os armorialistas valeram-se de todas as formas de expressões artísticas - teatro, cinema, arquitetura, música, dança, literatura, artes plásticas. Em 1955, Auto da Compadecida projetou nacionalmente o nome de Ariano Suassuna. Anos depois, no começo da década de 1960, o crítico Sábato Magaldi não deixou por menos e disse que era o texto "mais popular do moderno teatro brasileiro".

As montagens sucederam-se por todo o País. E Auto ganhou versões para cinema e televisão. Chicó e João Grilo, os personagens centrais, viraram emblemas de brasilidade. O primeiro Auto irrompeu no cinema em 1969, com direção de George Jonas. Premiado no 2.º FIF, Festival Internacional do Filme, do Rio, não chegou a fazer muito sucesso de público nem de crítica, com seu elenco jovem que depois ia estourar - Antônio Fagundes e Regina Duarte. O que o filme tinha de mais vistoso era a pesquisa visual.

Se era um elemento forte, o visual impunha também um limite. De olho na forma, o diretor e o próprio espectador descuidavam do texto. Passou-se mais de uma década e o Auto ressurgiu na tela com direção de Roberto Farias, modelado para o trapalhão Renato Aragão, que fazia João Grilo. A terceira e melhor adaptação surgiu na passagem do milênio. Fez sucesso de público e crítica, mas despertou polêmica - era TV ou cinema? O pernambucano Guel Arraes adaptou O Auto, com o acréscimo do O ao título, em 1999, na Globo. Concebido no formato de microssérie, o roteiro foi escrito por Guel em parceria com o casal João Falcão/Adriana Falcão. As imagens foram captadas em película, já visando a uma futura apresentação nos cinemas - o que ocorreu em 2000.

O Auto da Compadecida fez história não apenas por trafegar entre a TV e o cinema - e, depois, na versão compacta, voltou à televisão -, mas também porque na fase chamada de Retomada foi dos primeiros filmes a ultrapassar a barreira do milhão de espectadores. Outra retumbante adaptação permaneceu na TV - A Pedra do Reino, por Luiz Fernando Carvalho (e ele também adaptou Uma Mulher Vestida de Sol, que o próprio Suassuna considerava a melhor versão audiovisual de sua obra inteira). Auto, a mais popular, é uma comédia que mistura barroco, literatura de cordel e tradição religiosa. João Grilo representa o homem pobre e aproveitador, que vive arranjando confusões para si mesmo e os outros. Seu melhor amigo, Chicó, é o homem covarde que conta lorotas para se engrandecer.

Na trama, e talvez se possa ver na obra uma aproximação com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, de 1964, Chicó e João Grilo se envolvem com o bispo e o cangaceiro. A ação converge para o julgamento no céu, com a intervenção de Nossa Senhora em favor dos heróis. Em entrevista ao Estado, na época da estreia do filme, Guel Arraes disse que não demorou mais do que cinco horas para reeditar O Auto da televisão, o que prova que ele, realmente, já tinha o filme pronto na cabeça. Cortou as cenas do começo da microssérie. E chegou a dizer que o filme ficaria incompreensível se cortasse o julgamento, no desfecho.

É curioso como Guel, querendo ter um romance na microssérie (e no filme), buscou-o em outro original de Suassuna - A Tortura de Um Coração. E não dispensou a influência do italiano Boccaccio, cujo Decameron inspira a história do morto que ressuscita. Mas, se a microssérie e o filme criam empatia com o público é graças à prodigiosa alquimia dos atores que fazem João Grilo e Chicó. Matheus Nachtergaele e Selton Mello nasceram para dar colorido aos papéis. E Guel ainda criou sua Nossa Senhora madura - a grande Fernanda Montenegro. O que Suassuna nunca aceitou foi a comparação, feita por muitos críticos, entre a esperteza de João Grilo e a falta de caráter do Macunaíma de Mário de Andrade. Suassuna sempre achou que João Grilo tem todo o caráter do mundo e é o que o leva a lutar contra todos, do patriarca ao demo. O Auto de Guel lhe faz justiça. Era, e continua sendo, maravilhoso.

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