TV digital chega primeiro a Sorocaba

Haverá um dia em que será possível escolher, manejando o controle remoto, qual o melhor ângulo para se ver uma corrida de Fórmula-1. Um dia em que uma partida de futebol poderá ser assistida sem que se perca de vista o craque favorito, focalizado o jogo todo por uma câmera exclusiva. Um tempo em que a novela das oito será apenas uma novela - disponível a qualquer hora do dia. No Brasil, os consumidores de TV por assinatura serão os primeiros a experimentar alguns desses recursos, disponíveis graças ao sistema digital de televisão.Além de interatividade, essa tecnologia permite melhor qualidade de imagem e som (semelhante ao DVD), com o extermínio completo de fantasmas e chuviscos. E mais: possibilita o acesso a serviços diversificados como canais de compras e Internet. O sistema vai começar a ser testado em Sorocaba ainda este mês por 250 usuários do maior provedor de TV por assinatura do Brasil, o Globocabo. A cidade, localizada a 100 km de São Paulo, foi escolhida por ter uma população que, do ponto de vista social e econômico, é representativa da realidade brasileira.Três padrões - Durante o evento de divulgação do projeto, na última quinta-feira, a Globocabo anunciou uma parceria com a Microsoft, criadora do software de tevê digital, que será instalado na casa dos assinantes por meio de uma caixa, de aspecto semelhante ao de um videocassete, conectada ao aparelho de tevê. "Queremos detectar, com essa experiência, quais serão os serviços mais apreciados pelos consumidores e estabelecer quanto estarão dispostos a pagar por isso", disse o presidente da Globocabo, Moysés Pluciennik.Para que a tecnologia digital chegue ao sistema de tevê aberta - aquela que todo mundo tem em casa -, é preciso que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) escolha um entre os três padrões existentes no mundo: o americano, o europeu e o japonês. Só depois de tomada essa decisão - o que deve ocorrer até o fim do ano -, os fabricantes de produtos eletroeletrônicos poderão começar a produzir aparelhos de tevê capazes de receber o sinal digital, cuja tela deverá ser retangular como a de cinema. "A total transição do sistema analógico (usado atualmente) para o digital será muito demorada", aponta o especialista em tevê Gabriel Priolli. "Levará entre 10 e 15 anos." Atualmente, 62 milhões de pessoas no mundo têm acesso à tevê digital. O número é maior do que o de aparelhos instalados no Brasil: 50 milhões, segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). A expectativa é de que em 2005 a tecnologia digital esteja sendo utilizada por 357 milhões de usuários.Alguns estudiosos estrangeiros acreditam que um dos reflexos dessa nova maneira de assistir tevê será a extinção dos comerciais, uma vez que as pessoas poderão montar sua própria programação agendando as atrações para o horário que julgarem mais conveniente. Gabriel Priolli discorda: "O videocassete é uma ferramenta que permite às pessoas gravarem os programas. Mas pouca gente o usa assim - o que significa que o público não se incomoda em receber uma grade pronta". E acrescenta: "A tevê digital irá muito provavelmente incrementar a publicidade, pois o telespectador poderá, por exemplo, usar o controle remoto para clicar na camisa de um ator e, assim, saber onde comprá-la, a que preço etc." Os especialistas em tecnologia defendem que, no futuro, um único aparelho irá reunir a televisão, o computador, o som e o telefone. A isso dão o nome de "convergência". Quando alguns de nossos eletrodomésticos tiverem convergido em um só, e a televisão digital tiver substituído a analógica, a palavra telespectador será, muito provavelmente, obsoleta - a atitude do público diante da tevê (ou sabe-se lá que nome terá esse novo equipamento) não será, absolutamente, de passividade.

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