TV Cultura celebra 80 anos de Fernando Faro

Diretor recebe homenagem em programa especial da emissora que vai ao ar quinta

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 12h40

Com o histórico Ensaio, criado háquase 40 anos e ainda no ar, Fernando Faro desenvolveu umaestética peculiar, com a câmera em big close, fechando em olhos,bocas, mãos e outros pormenores dos convidados, sob iluminaçãode alto contraste. O entrevistador nunca aparece, nem se ouvesua voz, mas na presença dele nem é preciso atingir o grau deintimidade do programa para reconhecer na pessoa o humor, adelicadeza, a elegância e a sensibilidade como inerentes de suapersonalidade. Esses traços estão presentes em detalhes dagrande festa que a TV Cultura preparou em sua homenagem. A partemusical do programa, que vai ao ar nesta quinta-feira, 21, das 20 às 22horas, foi gravada na noite de terça-feira no Teatro Franco Zampari, comparticipação de amigos de longa data do produtor e diretormusical, como Paulinho da Viola, Inezita Barroso, Toquinho eRolando Boldrin, e artistas de gerações mais recentes que eleadmira, como Vanessa da Mata, Zeca Baleiro e Edvaldo Santana. Faro, também conhecido como Baixo, completa 80 anosnesta quinta e, além de continuar dirigindo Ensaio, tem planos deinvestir em programas diferentes na nova etapa que iniciou naemissora, como diretor do núcleo de música, desde a semanapassada. O Ensaio especial em sua homenagem foi dirigido pelocineasta Ricardo Elias, de Os 12 Trabalhos. Além dos númerosmusicais e textos reflexivos do próprio Faro lidos pelaapresentadora Cuca Lazzaroto, o programa conta com imagens dearquivo e uma entrevista que Faro concedeu ao jornalista PauloMarkun, o novo diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta. A festa começou cedo e espalhou-se pelos bastidores, ementusiasmadas conversas entre artistas, jornalistas, produtores,fotógrafos e até o prefeito Gilberto Kassab, que passou paracumprimentar Faro, mas não ficou para ver o show. EnquantoEdvaldo Santana procurava um reservado para trocar de camiseta,Paulinho da Viola aproveitava para afinar os acordes com a VelhaGuarda da Portela. Os percussionistas esquentavam o couroimprovisando uma animada roda de samba, que ganhou reforço doacordeão do gaúcho Alessandro Kramer. Quando o grupo tocouFeira de Mangaio, de Sivuca, com o sempre sorridenteOswaldinho da Cuíca bailando ao redor, foi de abalar.Bom humor Já no palco, depois das boas vindas do ator Juca deOliveira e de Paulo Markun, Inezita Barroso entregou a Faro umaprova do livro de fotos e textos históricos sobre o Ensaio,que será lançado em breve. Kramer abriu o roteiro musicalsurpreendendo quem não o conhecia, em bela interpretação deLamento Sertanejo (Dominguinhos/Gilberto Gil), ao ladoviolonista Guinha Ramirez. Edvaldo Santana também teve seumomento de brilho. Zeca Baleiro escolheu a clássica MinhaHistória, do conterrâneo maranhense João do Vale (1934-1996). O bom humor deu a tônica aos depoimentos gravados porGilberto Gil e Chico Buarque e da performance de Rolando Boldrin De perfil interiorano, o ator, cantador e apresentador daCultura contou que vestia smoking pela primeira vez e dedicou acanção Meu Caboclo (Laurindo de Almeida/Junquilho Lorival) aoaniversariante. Em dois momentos Boldrin arrancou gargalhadas daplatéia - ao contar uma história que ouviu do próprio Faro sobrea fama de comilão do cantor Ciro Monteiro (1913-1973), oFormigão, e ao comentar o estranho traje que envergava: "Dizempor aí que é a roupa mais caipira que existe." Juca já havia comentado antes que o famoso codinome doprodutor foi dado por Cassiano Gabus Mendes (1927-1993), um dospioneiros da TV no Brasil, quando ambos trabalharam juntos naextinta TV Tupi, nos anos 60. A partir de então, Faro passou ase referir a todos como "baixo" e "baixa". No depoimento, Gilchamou Faro de "o baixo de maior estatura do Brasil" e Chicodisse não saber até hoje se ele ganhou o apelido "porque ébaixinho ou porque fala baixinho". Como Chico, Edvaldo Santana eToquinho têm afinidades futebolísticas com Faro e o assunto,claro, também entrou na roda, no palco e nos bastidores. "Fiqueiamigo de Faro jogando futebol e sempre admirei o trabalho delede representação da cultura e da música brasileira", diz Santana. "As pessoas às vezes não se dão conta, mas isso é muitoimportante nesta conjuntura maluca do descartável em que a gentevive o tempo todo."Toquinho e Paulinho Em passagens divertidas, Toquinho e Paulinho da Viola,que juntaram os violões num raro e belo choro de Garoto,apontaram momentos em que Faro os colocou em xeque. Ainda novato depois de ter aprendido a tocar violão com grandes mestres,Toquinho se viu induzido por Faro a moderar o virtuosismo logono primeiro encontro com ele. "Fernando me deu muito mais do quetodos os meus professores. Ele me ensinou a lidar com asimplicidade e com a emoção", apontou. Paulinho, que participoude diversos programas dirigidos por ele, numa de suas visitas aodiretor na TV Tupi foi intimado a compor o tema de abertura deuma novela, Simplesmente Maria, no ato. "Pedi para que ele mepassasse a sinopse e tal, que depois eu mandava a música. Masele disse: ‘Não, você vai fazer é agora.’ Aí me trancou numasala, arranjou um violão, uma sinopse da novela e falou que eusó ia sair de lá com a música pronta. E a música foi feita assim. E gravei lá mesmo." Como o amigo Toquinho, Paulinho também aprendeu com Faro "Ele é muito espirituoso, engraçado, inteligente, sensível amuitas coisas. Uma vez, em meados dos anos 70, ele me deu umtoque, não fez um discurso pra chamar atenção de uma coisa. Euestava cantando uma música e ele me disse, ‘ô, baixo, canta umpouquinho mais liso’. Aí eu fiz isso e depois quando fui ouvir,achei que ele tinha razão. A partir daquele momento passei acantar de uma maneira diferente." Momentos antes de entra no palco, Vanessa da Matacomentou no camarim como Faro expõe os artistas com "doçura" emseu programa. Vanessa já protagonizou dois Ensaios e napróxima semana grava o terceiro. "Ele tem aquele jeitinho doce,vai abrindo os caminhos, e de repente você está contando pra ummonte de gente coisas que nem imaginava contar para ninguém",diz. O baixista André Rodrigues, que a acompanhou no palco aolado do guitarrista Davi Morais, lembrou que Sandra de Sá nãoparou de chorar o tempo todo que gravou o Ensaios. "As pessoasreagem assim porque ele vai no ponto certo que emociona." Emoção também não faltou perto do encerramento do show,quando Paulinho da Viola, depois de contar histórias e cantarsua "Dama de Espadas", recebeu a Velha-Guarda da Portela, paraentoar o clássico Esta Melodia (Bubu da Portela e Jamelão). Nofinal, com todos os convidados no palco, Boldrin quebrou maisuma vez o protocolo e puxou Jair Rodrigues da platéia parareforçar o vocal do antológico samba Foi Um Rio Que Passou emMinha Vida, também de Paulinho, como todo mundo sabe, oudeveria saber. Uma celebração e tanto.

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