"Turma do Gueto" põe a periferia na TV

Se você olhar bem, o cenário mais parece um beco sem saída, pichado, daqueles que se encontram facilmente no subúrbio das grandes cidades. Apesar de tudo ser fictício, o pátio da Escola Pública Quilombo, onde se passa boa parte das histórias da Turma do Gueto, nada mais é do que um retrato bastante fiel das periferias brasileiras. O seriado, que tem data de estréia prevista para 31 de outubro, às 22h30, na Record, tem tudo para entrar na história da televisão brasileira como o primeiro programa protagonizado por negros.O projeto é de Netinho de Paula, pagodeiro e apresentador do Domingo da Gente, que encontrou na produtora Casablanca Service Provider e na própria Record o apoio que precisava para tornar realidade esse antigo sonho. "Penso nisso há mais de dois anos. Quando fui contratado pela Record eu também apresentei esse projeto, mas na época ele não aconteceu. Recentemente fui procurado por outra emissora para apresentar um programa. Durante as negociação pela minha permanência da Record, bati nessa tecla e disse que só ficaria se a Turma do Gueto saísse do papel. A emissora concordou e firmamos uma parceira com o pessoal da Casablanca, na pessoa do diretor Pedro Siaretta", explicou ele, durante a coletiva de apresentação do elenco.Além de Siaretta, o seriado também conta com a direção de Cláudio Callao e roteiro de Laura Malin, que já trabalhou em produções como Will & Grace e Os Simpsons. Para ela, o fato do seriado ser ambientado em São Paulo não o torna regional. "Esta cidade é uma terra mais de imigrantes e outros brasileiros do que de paulistas. É uma grande metrópole e isso se reflete até na periferia."Elenco estreante - Netinho encabeça o elenco, formado majoritariamente por atores negros, vários deles estreantes e vindos de grupos de teatros de ONGs que realizam trabalhos na periferia de São Paulo, como em Capão Redondo. Inicialmente 800 jovens se inscreveram para os testes. "O primeiro critério que levamos em conta foi o talento para atuação, depois vieram as características físicas, a fim de formarmos os núcleos das famílias de cada personagem. Foi muito difícil chegar a um grupo de 36 atores, pois tinha muita gente boa!", analisa Callao.A violência, as dificuldades financeiras, a falta de perspectiva para o futuro e o valor de uma amizade serão assuntos tratados no seriado, assim como a alegria, a musicalidade, a esperança e o amor vistos pela ótica dos jovens da periferia. "Vamos mostrar quais os obstáculos que esse povo enfrenta para entrar na sociedade e como é a competição com brancos e estrangeiros. A questão do negro e do pobre não será o tema central, mas sim as tramas, as histórias vividas no dia a dia", explica Laura. "É uma de série de negros feita para negros e brancos, assim como fazem séries de brancos para brancos e negros", acrescenta Netinho.Na trama, Netinho é Ricardo, um professor universitário, de classe média, que vem de Porto Alegre para lecionar numa escola pública em São Paulo. "Como teve um corte na universidade, ele resolve voltar para sua terra, rever seus amigos e também o grande amor da vida dele, que infelizmente já está casada. Ele se sente um pouco em dívida com seu povo", define o apresentador, que continua no comando do Domingo da Gente e no final de outubro lança seu segundo disco solo.Quem está envolvido com o projeto acredita que o seriado vai mudar o senso da teledramaturgia no Brasil. "A Record vai acabar influenciando outras emissoras a darem mais espaço para essa raça, que só ganha destaque em três caminhos: na música, nos esportes ou no tráfico de drogas. Acho que, ao menos, as outras emissoras vão se indagar se estão agindo corretamente. Apenas queremos que todos tenham a mesma oportunidade nessa sociedade", comenta Netinho, endossado pela equipe da Casablanca.No elenco estão ainda Samantha Monteiro, Nill Marcondes, Simony e o marido Afro X, Compadre Washington, Big Richard, Luciana Silveira, Adriana Alves, e apresentando os jovens Sidney Santiago, André Ricardo de Almeida, Letícia Porto, Danielle Barros, Bruno Tarcis, Gina de Oliveira, Antônio Carlos dos Santos, Juliano Arruada e as crianças Kelvin de Souza e Beatriz Bueno.Cada capítulo está orçado em R$ 150 mil e a tecnologia usada é 100% digital, apresentando um cuidado técnico poucas vezes visto na TV. O programa já conta também com um site (www.turmadogueto.com.br) que traz informações sobre o seriado, perfil do elenco, notícias sobre a produção, e em breve abrirá espaço para a divulgação de atividades voltadas para a cidadania, além de contatos de ONGs e roteiros de cursos.

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