Turistas imaginários

Enquanto Luana corria na maratona, fui para a sauna, onde a atração eram os três tenores cantando completamente nus

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 02h00

Do diário imaginário de um turista do futuro.

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“As fotografias não fazem justiça a Titã, a lua de Saturno. Nossa primeira surpresa foi na chegada: Titã é cor de beterraba! Imagine-se pisando numa enorme beterraba gelada. Foi o que sentimos o tempo todo. Tudo tem cor de beterraba em Titã. Não sei que cor terá a beterraba. Mas não há indício de vida na lua de Saturno e duvido que existam legumes. Na verdade não tem nada para comer em Titã. Nada para fazer. Nada para ver, a não ser vastos espaços gelados, cor de beterraba. Dizem que Titã é como era a Terra, antes de surgir a vida orgânica. Especula-se que a vida na Terra começou assim, com a visita de turistas de outro planeta. Com as bactérias do lixo deixado por visitantes do espaço na beira de um rio de lava. Todas as espécies terrestres descenderiam de um piquenique. Tome cuidado, portanto. Quando limpar a meleca do dedo numa pedra de Titã, você pode estar começando uma civilização.

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Afinal, Titã vale ou não vale uma visita? Sim e não. É longe e a viagem é cara, mas é preciso lembrar o seguinte: Titã é uma lua de Saturno. O que significa que, para todos os efeitos, Saturno é a lua de Titã. Saturno e seus anéis ocupam metade do céu de Titã, quando saem. Um espetáculo inesquecível. 

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Cotações. Comida: zero. Divertimento: zero. Atrações culturais: zero. Cartões de crédito: nenhum. Natureza: demais.

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Uma dica: leve roupa quente. A temperatura pode chegar a menos 300 fora do hotel, mas você não vai querer perder as noites de Saturno cheio.

Cruzeiro. Do diário imaginário de um passageiro num navio de luxo.

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“Assim que chegamos na cabine, levados por um simpático rapaz (filipino? cearense?) a Luana vestiu o biquíni e foi procurar uma das piscinas. Eu fui explorar o interior do navio. Suas dimensões são realmente impressionantes: levei quatro dias para encontrar o caminho de volta à cabine. Só então fiquei sabendo que a Luana tivera uma acidente na cascata artificial entre as piscinas do Deck Maraviglia e do Deck Stupendo, torcera o pé, fora atendida por um médico (italiano? grego?) que lhe propusera casamento, mas ela já estava boa e, inclusive, inscrita na maratona do dia seguinte, duas voltas inteiras no Deck Bravíssimo, competindo por um BMW. Naquela noite jantamos num dos 17 restaurantes do navio, comida sueco-napolitana, com direito a show do Frank Sinatra, ressuscitado especialmente para o cruzeiro, e depois fomos olhar as estrelas. No planetário, pois não havia lugar nos decks, ainda mais com os campeonatos simultâneos de hula-hula e “celebrity jiu-jítsu”. O concerto do dia seguinte, da Filarmônica de Berlim, foi entre o café e o lanche da manhã. À tarde, depois dos blinis com caviar e antes do buffet de lagostas nas piscinas, o Circo de Moscou. Enquanto Luana corria na maratona, fui para a sauna, onde a atração eram os três tenores cantando completamente nus. À noite, jantar no bistrot “L’Intime”, penumbra gostosa, pianinho simpático (Brad Mehldau) – e cama. Luana e eu sabíamos que o dia seguinte seria muito especial: o navio zarparia.

Avaliação: altamente recomendável. Só uma observação: tente evitar a comida. Não é que seja ruim, é demais. Não só há 11 refeições por dia, sem contar os lanches entre uma e outra, como Luana e eu éramos constantemente acordados no meio da noite por um dos chefs sentado na nossa cama, com um espetinho ou uma tigela na mão, dizendo “Vocês precisam provar isto”. 

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Simone Raimunda

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