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Turismo selfie

Vamos chamar assim – uma viagem selfie – esta aventura na qual, um pouco por escolha, um pouco pelas circunstâncias, acabei embarcando, entregue a mim mesmo em regime de radical monogamia, por muitos dias e a milhares de quilômetros de meu travesseiro.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 02h00

Já passou por isso? Feitas as contas, recomendo.

Não que eu goste tanto assim da minha companhia; impossível não lembrar Paul Valéry, para quem um homem sozinho está sempre mal acompanhado. Mas a esta altura (“entre idas e vidas”, diria o sábio Antonio Portela, faiscador de preciosidades verbais) já me acostumei a mim – e, de resto, é tudo o que tenho no momento.

Não estou reclamando. Viajar sozinho não é uma empreitada deprê, pelo menos não o tempo todo. Tem lá suas vantagens. Uma delas: poder falar mal língua estrangeira, sem que a presença inibidora de algum compatriota nos recomende o prudente silêncio dos monoglotas. Mas é claro que faz falta alguém para trocar impressões, ou para tirar a dúvida que a cada passo me acomete:

– Nós estamos gostando?

Companhia não faz falta apenas na hora de rachar o táxi. Serve também para evitar o ar de pena, ou de indisfarçada irritação, quando, no restaurante cheio, você avisa que não haverá mais que um comensal.

– É só o senhor?

Como quem dissesse:

– O senhor não tem ninguém? Nem um cachorrinho?

Nem um cachorrinho. Estou de escoteiro, como gostava de dizer meu pai. Escoteiro neste mundo que, sabemos, está organizado para conjuntos no mínimo binários – tudo é feito para Senhor & Senhora, Senhor & Senhor, Senhora & Senhora, de preferência Senhores & Senhoras –, e que não raro se mostra hostil com pessoas avulsas, essas que, providas de uma boca apenas, insistem em empatar mesa para dois no restaurante.

Nesses momentos, em especial, tenho sentido falta da amiga Ana, não apenas restauratrice das melhores como sommelière infalível. Desde que me pus a viajar com ela, já não sei escolher vinho. Aprendi a balangar a taça, a semicerrar um olho para espiá-la contra a luz, a dar no conteúdo aquela cafungada judiciosa – mas a verdade é que regredi à condição de analfabeto enológico, com o risco de subestimar néctares e me regalar com beberagens. Depois da Ana, o máximo que ouso afirmar é que aquele mais escuro é o tinto.

Apesar disso, devo admitir que o turismo selfie tem lá seus encantos. Permita-me teorizar sobre o óbvio. Viajar com alguém é garantia de proteção, mas pode resultar numa experiência pobre: a companhia, de certa forma, nos blinda, na medida em que dispensa, ou mesmo impossibilita, uma exposição mais direta às coisas e às pessoas. Você pode ficar invulnerável a uns tantos perigos, mas também a contatos potencialmente enriquecedores. Corre o risco de apenas resvalar naquilo e naqueles que encontra no caminho. Imagine o significaria isso para mim, fuçador compulsivo e insopitável puxador de papo.

Depois, vai me dizer que você não preferiria às vezes desfrutar, não digo de solidão, com sua carga de desamparo, mas daquilo que Paulo Mendes Campos chamou de “sozinhez” – algo como o inglês “loneliness”, em oposição às agruras da “solitude”. Mesmo a estigmatizada solidão tem seus atrativos, além daquele que o cronista Antonio Maria considerava o único: ir ao banheiro com a porta aberta. Há mais que isso. Por exemplo, descobrir que você, tão intolerante com o desenfreado comprismo de certas companhias de viagem, também gosta de empacar numa vitrine, encalhar numa loja e, se bobear, despender ali quantidades insensatas de tempo e dinheiro.

É bom poder pausar a caminhada onde, quando e por quanto tempo lhe der na telha, mesmo que o móvel da escala seja, para a humanidade em peso, alguma insignificância. Na contramão, ignorar o mais imperioso dos cartões postais, como quem, no Louvre, passasse batido pela Mona Lisa para se deter ao pé de obra menos prima. Palmilhar quadras e mais quadras qual camelo velho só para reencontrar, numa confeitaria que não está nos guias, o doce ou salgadinho que um dia proporcionou orgasmo inesquecível a nossas papilas gustativas.

Ou, já que chegamos ao departamento paladar, escolher por impulso este restaurante em que acabo de me aboletar, casa pouco ou nada estrelada para a qual a outra pessoa provavelmente torceria o refinado nariz. Tudo bem – mas sem exagero: uma vez mais, lamento não ter aqui a Ana, a quem por certo indagaria, agora que já balanguei a taça e cafunguei no vinho:

– Nós estamos gostando?

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