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Cristina Padiglione
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Turismo de novela

Flor do Caribe, novela das 6 que estreia amanhã, na Globo, é força de expressão. O batismo convém ao deslumbramento da plateia nacional, mas poderia perfeitamente ser Flor de Natal, visto que é o Rio Grande do Norte o cenário central da história de Walther Negrão, declaradamente inspirada no Ceará que emoldurou outra trama sua, Tropicaliente, em 1993. Do Caribe, Flor tem lá uma participação especial da Guatemala, onde foram gravadas algumas sequências. E o mocinho da vez é de novo Cassiano, homenagem ao diretor e autor Cassiano Gabus Mendes, mas também a outro mocinho, justamente o de Tropicaliente, vivido por Márcio Garcia.

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h13

Faz tempo que a direção da Globo ensaia repetir algo como a novela que mais turistas russos atraiu para a costa brasileira - lá, foi batizada como Tropikanka. Agora, conta com a direção do esteta Jayme Monjardim, as cores precisas do HD e até um diretor de fotografia grifado no set, senhor Affonso Beato, que só fez aprimorar o azul do céu de Natal para que os aviões caça, da Força Aérea Brasileira (FAB), cruzassem as raras nuvens do pedaço.

É o próprio Negrão quem chama atenção para as coincidências em sua obra, durante nossa conversa, num flat onde ele escreve, em São Paulo: "Outro dia o meu filho disse: 'pai, não dá pra mudar o tempo em que os seus personagens ficam presos?' Em Despedida de Solteiro, eles ficavam sete anos no cárceres; em Vila Madalena, Edson Celulari ficava sete anos preso e agora o Henri vai ficar sete anos preso".

A personagem de Laura Cardoso, agora neta de cangaceiros e portadora de relíquias como um par de óculos de Lampião, é inspirada na Donana Sereno, personagem da mesma atriz de outra novela de Negrão, Pão Pão Beijo Beijo. E ele não omite nem as referências clássicas que deliberadamente pautam escritores menos dispostos a revelar suas fontes. Ao contrário, orgulha-se de dizer que sua Flor do Caribe tem um quê do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que garante à trama a dose de folhetim necessária à sua existência.

Folhetim é folhetim. Diante do espectador que hoje fragmenta sua atenção entre internet e celular, Negrão reconhece a necessidade de alcançar um ritmo mais acelerado do que o de 20 anos atrás. Mas, expert em novela das 6, sabe que tem uma plateia "flutuante" de jovens chegando da escola ou saindo para outras atividades. E, sobretudo, que o horário lhe reserva uma fatia maior que a da novela das 9 entre o público mais velho. Mas pergunte se ele tem pretensões de escrever novela das 9? "Não quero. Você ganha a mesma coisa, trabalha o dobro e tem três vezes mais responsabilidade. Gosto de fazer novela das 6 e minissérie".

Fazendeiro, amante do pé na terra, não é de frequentar Twitter ou Facebook, o que não quer dizer que não saiba fazer uso do retorno em tempo real que as redes sociais lhes propiciam. Uma coisa não muda entre a era da web, 3D, culto à linguagem seriada americana e os idos da televisão em preto e branco: é a essência do folhetim na telenovela.

"Sempre falo que você pode inovar o que quiser numa novela, mas se não mantiver um pé no folhetim, não dá certo." Seu exemplo clássico está num divisor de águas do gênero, Beto Rockfeller (Tupi, 1969). "Até o capítulo 30, Beto Rockfeller só causou estranhamento, mas não audiência", lembra. Cassiano Gabus Mendes então reuniu a equipe e fez com que o anti-herói vivido por Luiz Gustavo passasse a destinar o dinheiro conseguido em seus golpes ao pai (Jofre Soares), que estava desempregado, e a Vitório (Plínio Marcos), que tinha uma oficina mecânica em crise. "Virou um Robin Hood, e mais folhetim que Robin Hood, impossível", conclui.

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