Turíbio Santos escreve sobre sua vida

O violonista e diretor do MuseuVilla-Lobos, Turíbio Santos, delicia os amigos com históriassobre sua vida de concertista internacional, a ponto de elesinsistirem na necessidade de esses casos virarem livro. Elelevou o conselho a sério e lança, pela editora Zahar, o livroMentiras...ou não? Uma Quase Biografia, em que repassamomentos de sua vida, alguns singelos, outros dramáticos, outrosem que homenageia amigos e ídolos, como o maestro Eleazar deCarvalho ou o compositor Villa-Lobos, que conheceu aindaadolescente. É o seu segundo livro. Nos anos 70, escreveu um estudotécnico sobre Villa e o violão, além de ter gravado toda suaobra para o instrumento em 54 discos, metade deles editados noBrasil. Agora, ele relembra fatos passados, mas pensa numaautobiografia. "Adoro escrever, é tão bom quanto tocar violão.Tudo o que faço, música, escrita ou dirigir um museu, é parapreservar a memória, por isso não há muita diferença entre essastrês atividades", avisa. Lembranças, ele tem de sobra, pois conheceu pessoalmentee tocou com grandes nomes da música internacional. Sua narrativadireta nos reporta ao momento em que as histórias aconteceram,mesmo quando nos deixa na dúvida se aquilo é invenção, memóriaou lembrança misturada com imaginação. É assim no conto que abreo livro, O Grande Pianista, sobre uma viagem de navio em quea orquestra tinha, além dele, concertistas como ArturoMichelangeli, o flautista Jean Pierre Rampal, Victoria de LosAngeles, Isaac Stern e outros. Ou a história dramática dochaveiro que relembra os sofrimentos que passou na Françaocupada. "O caso do chaveiro, por exemplo, que havia sidodenunciado e preso pelos nazistas no prédio onde eu fui moraranos depois, resume a miséria e a riqueza dos sentimentoshumanos." As homenagens são, na maioria, musicais. Ele lembra oimpacto ao conhecer, aos 14 anos, Villa-Lobos numa palestra emque havia gatos pingados na platéia. Fala com ternura do maestroEleazar de Carvalho ("Ainda devem uma biografia que lhe façajustiça", reclama) e do talento de Jacob do Bandolim, já queTuríbio é o melhor exemplo da intimidade entre a música eruditae a popular no Brasil. Mas fala também de anônimos, como o fãque lhe arrumou um concerto em Pedro Osório, cidade perdida nafronteira gaúcha com o Uruguai, e do luthier japonês que insistiaem críticas a seu trabalho, mais que em elogios. Quando escreve sobre si mesmo, faz autocrítica, semmodéstia. Em A Mentira, conta os apertos para aprender oConcerto de Aranjuez, um standard do repertório de violãoclássico, em menos de um mês. Comenta também, na crônica OConcertista, a solidão do artista que luta para chegar ao topoe se vê absolutamente só quando alcança o objetivo. E consegueser técnico e claro para o leigo, quando descreve como oviolonista trabalha e trata as próprias mãos. Conta ainda oencanto de conhecer Paris ainda nos anos 60 e a desilusão devoltar à Cidade Luz já tomada pelos turistas. Em momento algum,há amargura em seus relatos. Mentiras... ou não? é um livro curto, que se lê deuma só vez, porque Turíbio excluiu algumas histórias. "Eramengraçadas, mas podiam melindrar seus personagens. Nem todo casoque faz rir agrada a quem o viveu", explica ele, que se sentetão realizado escrevendo, tocando violão ou deixando a carreirade concertista de lado para se dedicar ao Museu Villa-Lobosdesde os anos 80. "Quando toco, além de aprender a música,preciso conhecer o contexto histórico em que ela foi compostapara transmitir o sentimento do compositor", ensina. "No museu o projeto de educação é herança de Villa-Lobos, que ainda nãoencontrou um continuador. Afinal, só ele conseguiu juntar 40 milpessoas para fazer música." Conquistas - O que fica claro no livro e na conversa comTuríbio Santos é sua realização profissional e pessoal. Ele dizque, musicalmente, fez o que quis "e até mais do que acreditavaser possível". Tocou com grandes orquestras e instrumentistas,viajou, conheceu músicos famosos e anônimos que consideravaexcelentes e hoje dedica-se à preservação de nossa memóriamusical. Mas não faz muitos planos para o futuro. "A gente devese programar, mas tem de deixar também o futuro vir na nossadireção", diz. "A vida deve ser levada mais ou menos como numjogo de sinuca. A gente tenta a bola da vez e pode acertar ouerrar e, do resultado daquela jogada, vai em direção aoutras."

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