Tunick reúne 1,1 mil nus no Ibirapuera

De vestido longo dourado e salto agulha, a estudante Liane Portas saiu direto de sua festa de formatura, na casa de shows Via Funchal (zona sul de São Paulo), com o namorado, Ricardo, paratirar a roupa no Parque do Ibirapuera. ?A gente já tinha decidido isso desde ontem?, disse ela, ainda um tanto alegre pelo efeito da champanha. Liane dançou durante seis horas no salão até chegar à performance.Além de Liane e Ricardo, a sessão fotográfica comandada pelo fotógrafo americano Spencer Tunick levou outras 1,1 mil pessoas ? segundo estimativa da produção ? ao Ibirapuera na manhã deste sábado. Nus durante aproximadamente três horas, os voluntários passaram por todo tipo de provação, e reclamaram muito pouco.Reclamaram mais os curiosos que foram ao Parque para observar o acontecimento. ?Só tem pingo no i ali?, disse o porteiro Vicente Almeida Silva, de 45 anos, zangado com a predominância masculina na multidão de nus. Ao final da sessão, o fotógrafoSpencer Tunick afirmou que, em geral, essa proporção é de 55% de homens e 45% de mulheres ? ele chegou a fotografar 4,5 mil pessoas em Melbourne, na Austrália. Mas Tunick não arriscou um palpite para a versão paulistana de seu ?tapete humano?.De megafone na mão, auxiliado por uma tradutora, o artista americano comandou a sessão desde as 5 horas da manhã, quando ainda havia uma lua cheia no céu, e só parou após registrar a terceira foto, às 8 horas, com a multidão em um canto doparque de frente para o Obelisco, todos deitados na grama, rodeando a estátua de um esquecido Ibrahim Nobre (1932-1972), apelidado ?O Tribuno?, com seu braço estentido e o dedo inquiridorapontado para cima.?Eu soube disso aqui ontem à noite, vendo a televisão?, contou o advogado Florivaldo Almeida, de 71 anos. ?Vim sem minha família saber?, confessou Almeida, que tem 5 netos e 1 bisneto. ?Essa performance mostra que muitos paulistanos, cansados da falta de humanidade da nossa cidade, estão querendo voltar ao convívioda natureza?, ponderou.O começo, pouco antes das 5 horas, foi cheio de risadinhas nervosas e uma certa impaciência. ?Ô, Murilo, não foge da raia não, você nasceu pelado!?, gritava um participante no meio da multidão para o amigo que ameaçava desistir. Alexandre e Débora vieram de Curitiba, de ônibus, para participar do trabalho. ?Só estou pensando aqui o que é que vão fazer com nossa roupa, ondevão guardar?, preocupava-se Débora.As roupas que os participantes despiram ficaram ali mesmo, no calçadão do Ibirapuera, em montinhos irregulares. De cima de uma escada, com o megafone na mão, Spencer Tunick dava as instruções, cheias de pequenos vetos. ?Essa manhã faremos uma obra de arte?, afirmou o fotógrafo. ?A foto é totalmente inútil com algum adereço, então sem chapéu, sem peruca (gargalhadas na multidão), sem óculos. Sem câmeras, sem posições absurdas, braços e pernas e mãos para baixo, não cruzem as pernas, não abram as pernas. Vocês não sabem o que vão fazer: é uma foto íntima. É preciso criar um relacionamento especial entre vocês e nós. Sem mãos na cabeça, nacintura, as mãos ao lado do corpo?.Tunick diz que não é possível evitar o assédio dos curiosos e da imprensa, já que a foto é feita em espaços públicos. Mas certamente ele não esperava tanto alarde. Estão lá os apresentadoresde programas populares, alguns deles nus, Então, Tunick faz um apelo antes de começar: ?Deixem-me fazer minha arte e ajudem-me?.?Olha, um cara vestido!?, aponta um dos homens nus, divertindo-se com a platéia. O assédio ? o apresentador Wagner Sugamelle abordava os particapantes sem roupa ? levou a estudanteMilena R., de 20 anos, a desistir no meio da sessão. ?Tem muito preconceito, muita pressão em cima da mulher?, afirmou. A primeira foto foi tirada com todos em pé. A segunda, já sob amarquise do Ibirapuera, com os participantes deitados de barriga para cima, com as mãos ao lado do corpo. A segunda, todos em pé olhando para o Obelico e depois deitados, muitosem posição fetal.No momento da segunda foto, às 6h45, chegou o último retardatário. Ricardo Costa, de 32 anos, veio de Mogi-Guaçu de ônibus e perdeu a hora. ?Só me falaram disso ontem?, disse Ricardo, que énaturista. ?Se tivessem me falado antes, eu teria vindo mais cedo?, lamentava, enquanto tentava achar um local para guardar a ?bike? e insistir com a produção.Ao final das fotos, a drag queen e apresentadora Léo Áquila exultava. ?Foi um luxo! Ele é maravilhoso!?, disse, referindo-se ao fotógrafo.?Alguns vieram com malícia, mas foram dois ou três?, disse Florivaldo Almeida. ?No mais, foi pacífico, harmonioso, natural?. ?A massa de corpos é uma explosão de vida?, afirmou o fotógrafo. ?Eu fotografo todos os tamanhos e formas de corpos ? a beleza está na personalidade das pessoas?, afirmou ele.Veja as imagens do ensaio

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