Tunga e Esther, a alquimia

Escultor e a poeta Esther Faingold lançam hoje livro que fizeram juntos, Ethers, com tiragem de 300 exemplares

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h06

Hölderlin dizia ter um coração de cristal onde a luz se colocava à prova. O poeta alemão, é provável, não estava só fazendo poesia, mas perseguindo uma relação alquímica em que corpo e espírito se fundem numa única e indivisível entidade. O corpo idealizado do poeta pode não ser o mesmo corpo quimérico projetado pelo escultor Tunga - fragmentos de cristal e líquidos que passam de um frasco a outro como em sua instalação Cooking Crystals-, mas está próximo daquele que foi concebido pelo artista em parceria com a poeta Esther Faingold, que lançam hoje, a partir das 20 horas, na Galeria Mendes Wood (Rua da Consolação, 3.358), o livro Ethers, obra conjunta em que ele entra com as imagens e ela com a poesia, na melhor tradição da dupla surrealista Paul Éluard e Man Ray.

O livro, da Cosac Naify, é uma edição limitada de 300 exemplares, assinada e numerada. Ele ficará em exposição com os desenhos originais na galeria até sábado. Vale a visita, especialmente por ser uma edição pequena e para poucos (seu preço é R$ 3 mil). A partir do próprio título, anagrama de Esther, tudo se inverte no livro. Ethers, em inglês, corresponde a éter, em português, o que sugere a combinação explosiva de um grupo de moléculas orgânicas que, numa dimensão poética, dariam à palavra combustível metafísico para criar com desenhos um corpo alquímico. Enfim, palavra e imagem amalgamadas como no Gênese.

Os desenhos podem sugerir relações exclusivamente eróticas em que corpos interagem com fálicos pedaços de cristal, como no filme Cookery, de Tunga. No entanto, eles vão além das funções sexuais e reprodutivas. São escatológicos também no sentido bíblico e poético - Hölderlin, no poema Vom Abgrund Nämlich (Começando no Abismo), diz que falar da natureza é tomar sua forma. E essa transmutação, segundo Tunga, só é possível no livro graças aos poemas de Esther Faingold, ex-industrial que vendeu sua fábrica de autopeças para se dedicar à literatura.

Esther nasceu em Brasília há 36 anos, foi criada no Rio Grande do Sul e hoje vive no Rio, como Tunga, cujo trabalho acompanha há anos. Só em 2009, no entanto, veio a conhecê-lo, quando este a procurou para produzir alguns objetos de plástico - simulacros de excrementos - usados na instalação Cooking Crystals, apresentada na 3.ª Bienal de Moscou. Coincidências, desde esse primeiro encontro, indicaram que nascia ali uma parceria: ela aniversaria no mesmo dia do filho do artista, foi retratada por ele com mais dedos que o normal (Esther quase perdeu o mindinho aos 6 anos) e uma vez sonhou que não poderia ser enterrrada sem uma trança (escultura de chumbo) de Tunga.

Os dois começaram a trocar cartas e, estimulados pelo editor Charles Cosac, resolveram traduzir a experiência do trabalho conjunto num livro (nada mais bíblico), usando o conceito do carbono para imprimir no papel de seda - que funciona como espelho das palavras invertidas - o código genético dessa fusão verbo/imagem. Em síntese: Erebus e Nix copulam, dando origem a Éter, a luz celestial. "Somos testemunhas dessa cosmogênese", sintetiza Tunga. Esther, fiel à questão da imaterialidade e do vazio na obra de Yves Klein, vê nesse trabalho ressonâncias da metafísica do francês, outra afinidade eletiva da dupla.

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