Túmbulos

Meus filhos examinam todos os ‘túmbulos’, nomes, datas, fotos. Mortos não assustam

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

26 de dezembro de 2020 | 03h00

Influenciada por Drácula, Zé do Caixão e Michael Jackson, parte da minha geração sente desconforto em cemitérios. Cheguei a melar um acordo imobiliário em Pinheiros, quando notei que, da varanda, via parte de um. 

Me afligiu imaginar cortejos fúnebres, enterros, familiares chorando, e eu num café da manhã. Mas foi no cortejo, enterro, com familiares da minha mãe, que passei a frequentá-los. Com os filhos, que adoram.

O “túmbulo” da minha mãe, como eles dizem, é uma casinha mediterrânea numa alameda sem saída do Cemitério do Araçá. Da Avenida Dr. Arnaldo, vemos seu telhadinho azul, apesar do muro, e a cruzinha branca. Quando passo, sempre olho e mando tchauzinhos.

Foi um enterro lindo em 2018. Amigos dos anos 1970, 80 apareceram. Seu caixão foi carregado por egressos de bandas pós-punk, atores da Praça Roosevelt, fotógrafos, escritores. Ao final, Eduardo Suplicy cantou Blowin’ In the Wind.

Ela morreu nos 50 anos do AI-5. Bolsonaro estava eleito, para desespero de LGBTQI+, indígenas, ambientalistas, área cultural, democratas. Sua morte ganhou cinco vezes mais espaço nos telejornais do que a efeméride maldita. Apresentadores se emocionaram.

Depois de anos lutando contra o Alzheimer, evitou já inconsciente assistir à ascensão daquilo contra o que por décadas lutou. Em seu túmulo, a família italiana, inclusive os primeiros que chegarem em Santos, no século anterior. Cujas plaquinhas não informavam a data de nascimento em Puglia. Pois, talvez, nem eles soubessem.

Meus filhos examinam todos os “túmbulos”, nomes, datas, fotos. A grande maioria, italiana. O cemitério do Araçá surgiu com a ascensão de oriundi e a lotação do Cemitério da Consolação, da elite cafeeira. Tem uma paz e silêncio comoventes. Tem história. Mortos não assustam. Mortos descansam. 

Para o filho mais novo, a cruz é uma espada. Perguntou se um dia vai morrer, se Jorge, seu melhor amigo, também, e se eles podem viver na casinha da vovó depois que morrerem, porque é “muito fofinha”.

O mais velho se alfabetiza lendo epígrafes. Correm, se divertem. Não se encontra uma viva alma. O monumento de mortos em ação da Polícia Militar é uma construção moderna com três andares em mármore com elevador, vista privilegiada, estátuas em diversos uniformes e um policial de plantão.

Perguntei o colega mais famoso enterrado. Ele não titubeou: tenente Alberto Mendes Júnior. Ele sabe da história do policial da Força Pública morto por Lamarca? Tem foto dele em todos os quartéis, explicou.

Mendes Júnior foi pego como refém durante a guerrilha no Vale do Ribeira e morto a coronhadas em 1970, para não entregar a posição de seis guerrilheiros da VPR em fuga. Depois, Lamarca parecia se envergonhar do episódio. Num relatório da VPR, editado pela Casa das Américas, ele mentiu ao narrar que o tenente foi fuzilado e seu corpo jogado no rio.

Assis Chateaubriand, Cacilda Becker, José Carlos Pace, Vicente Feola, anarquistas como José Martinez, mártir da greve geral de 1917, estão lado a lado a Mário Kozel Filho, soldado morto numa explosão no Quartel o II Exército, atentado da VPR em 1968. 

Lá está o ossuário que de 2002 a março de 2016 abrigou ossadas de mortos e desaparecidos encontrados na vala clandestina de Perus. Foi depredado e os ossos espalhados, vandalizado. Retiraram-nos. 

No Cemitério da Consolação estão Tarsila do Amaral, Flávio Império, Maria Ester Bueno, o líder integralista Plínio Coreia de Oliveira, Washington Luis, Guiomar Novaes, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Ramos de Azevedo, Marquesa de Santos, que financiou a capela, e o mausoléu da família Matarazzo de três andares. 

Oswald de Andrade, quando foi vereador, liberou verbas para a reforma. Tem guia turístico, ou melhor, tumular, e QR-Code em totens. Elite.

Mas o nosso favorito, “scusa mamma”, é o Cemitério São Paulo. Estão lá o general Miguel Costa, comandante da Coluna Prestes, combatentes mortos na Revolução Constitucionalista de 1932 e os estudantes símbolos do movimento. No mausoléu, incríveis esculturas de soldados com rifles e baionetas. 

Esculturas de Brecheret, que está enterrado lá, num túmbulo modesto, com a foto dele e da esposa, e que foi reformado há cinco anos, quando antes não tinha nada, e de outros estão em toda parte. 

Ossos e caixões não são retirados. Viram pó, me explicou o coveiro, Gérson, que conhece tudo. “Caveira é coisa de cinema, tudo esfarela”. O combate acabou, todos viraram pó, mas da memória não nos livramos.

No túmbulo da família Fleury, o controverso delegado do DOPS, Sérgio Paranhos, com uma inscrição sui generis da mãe: “Meu herói. Por teu dever cumprido a história exaltará toda a verdade”. Bolsonaro não fará uma visitinha?

Fascina uma escultura na Quadra 4, que, da Cardeal Arcoverde, através da grade, parece um casal transando; um homem atlético nu sobre uma mulher nua. Beijam-se em tamanho natural. Seu traseiro é... escultural. Ilusão de ótica. Vê-se de dentro. Um homem nu beija uma moça morta, mas não sobre ela. Aquele Beijo, de Alfredo Oliani, é uma polêmica e maravilhosa obra tumular. 

Antônio Cantarella, rico comerciante italiano, morreu em 1942. Sua mulher, Maria, anos mais jovem, mandou esculpir. Morreu em 1982 e deixou as palavras: “Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto. Tributo de Maria”. Isso é mais que amor.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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