Tulipa Ruiz e seu pop florestal

Urbana, mas ligada na natureza, a cantora e compositora equilibra poesia e bom humor no autoral CD de estreia

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Karina Buhr, Thiago Petit e agora Tulipa Ruiz. A onda de bons álbuns de estreia neste 2010 espelha o momento de significativa comunhão musical que toma ares de movimento em São Paulo. Efêmera (YB Music), de Tulipa, é mais um cruzamento de ótimas ideias. Sem pretensão e com aditivos de uma penca de amigos - alguns dos que fazem companhia a Karina e Thiago - que tocaram, fizeram coro e desenharam tulipas para o bonito encarte do CD, já entre os melhores do ano.

"A divulgação da minha música é coisa absolutamente virtual. Antes de sair o CD já está tudo na internet. Já nasci picotada, fragmentada. É tudo muito efêmero mesmo. Justo eu que adoro o ritual do disco", diz Tulipa.

Filha de guitar hero (Luiz Chagas, que tocou na banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção), Tulipa naturalmente privilegiou na sonoridade do CD os timbres de guitarra, pelas mãos do irmão, Gustavo Ruiz, que assina a produção. Isto também é resultado de experimentação em muitos shows que fizeram juntos.

Nascida em Santos, litoral de São Paulo, criada no interior de Minas (vem daí a expressão "pop florestal" que ela usa para dar pistas de seu som) e desenvolvida na capital paulista, Tulipa filtra influências desses ambientes. Daí as letras abordarem tanto elementos da natureza (A Ordem das Árvores), como cenas urbanas paulistanas (Às Vezes), personagens inventados (Pedrinho) e situações reais pessoais (Pontual, Só Sei Dançar Com Você).

Personalidade. Exceto a antiga, mas atualíssima, Às Vezes (Chagas), as demais são de autoria de Tulipa, que assina uma com o pai (Sushi) e três com o irmão (Efêmera, Do Amor e Brocal Dourado). Melodista e letrista espirituosa, ela desenha canções cheias de poesia, bom humor e feminilidade sem afetação. Seu timbre vocal é ímpar e delicado.

A cantora diz que pensou muito em Milton Nascimento ao desenvolver seu trabalho, mas, além do Clube da Esquina, a sonoridade obtida remete ao tropicalismo (Efêmera), ao soft rock dos anos 60 (Pontual) e à gloriosa Gal Costa dos 70 (A Ordem das Árvores), que tem o riff de guitarra de Ele me Deu Um Beijo na Boca (Caetano Veloso), de 1982. Caetano (How Beautiful Could a Being Be, de Moreno) também é citado em Aqui. Tudo, porém, é contemporâneo, tem cheiro de novo.

Muito ligada na fusão sound & vision, além das letras ricas em imagens, compôs Da Menina para um filme, fez a ilustração da capa do CD e pediu a vários amigos que pintassem tulipas para o encarte. "Foi inevitável chamar Edith Derdyck, que criou a capa de Caprichoso (1985), do Grupo Rumo", diz.

Também chamou Ná Ozzetti (ex-Rumo), mas não para cantar. Os desenhos de Ná devem ser projetados no show que Tulipa fará no fim de maio no Auditório Ibirapuera. Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Romulo Fróes, Érika Machado, entre outros, também plantaram seus nomes nesse jardim de papel.

Céu, Iara Rennó, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas se juntaram no coro. Em Pedrinho (em que Tulipa se imagina um homem amando outro) juntaram as vozes Tiê, Mariana Aydar, Juliana Kehl, Leo Cavalcanti e Tatá Aeroplano. Futuramente os retardatários vão se ligar que essa geração já começou a fazer História, embora essa "construção de instantes" seja difundida a granel, nestes tempos de produtos cada vez mais efêmeros.

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