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Tudo sobre um pouco ou pouco sobre tudo

Sociedades agrícolas empobrecem a dieta e fazem surgir o Estado, os impostos...

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2016 | 02h00

Você gostaria de encontrar um médico que soubesse tudo sobre a patela do seu joelho esquerdo, mas que pouco refletisse sobre onde fica o coração? Seria melhor um profissional com informações mais gerais sobre o corpo como um sistema? A resposta lógica, parece-me, seria: “Depende da situação”. Estou fazendo exames clínicos gerais ou tratando minha patela esquerda? Por vezes, a visão geral é iluminadora. Com frequência, a especialidade resolve problemas muito tópicos. 

Ocorre algo similar no campo profissional da História. Como sucede em muitas áreas, a bibliografia e os arquivos cresceram geometricamente. Ampliar o tema significa perder densidade analítica. Havia uma tradição de olhar amplo geográfico (como o livro de Fernand Braudel sobre o mundo do Mediterrâneo à época de Filipe II) ou de recortes generalizados (como o estudo de Arnold J. Toynbee).

O modelo de história de sucesso para o grande público, porém, foi tomado por estudos da chamada micro-história (Carlo Ginzburg: O Queijo e os Vermes; Nathalie Zemon Davis: O Retorno de Martin Guerre). Por prudência acadêmica, moda e motivações teóricas, os livros consagravam períodos curtos e, muitas vezes, enfoques biográficos. A vida de São Luís, do medievalista Le Goff, vendeu bem. Biografias escritas por não historiadores, como os textos de Fernando Morais, alcançam milhões de pessoas. O mercado biográfico continua forte.

Algumas obras de sucesso mostram que há interesse por visões mais amplas. Observar tempo maior pode indicar uma coisa que agrada muito à maioria das pessoas: uma espécie de organograma amplo da humanidade, de preferência com desvendamento de leis de funcionamento. Sempre que expus para alunos a teoria sobre a ascensão e queda dos impérios (como nos livros de Paul Kennedy ou na obra de John Darwin), senti aumento do foco de atenção dos ouvintes. Formam-se esquemas mentais: “Ah, então é assim? Aumento de fronteiras, multiplicação de inimigos, queda da produtividade e inventividade, substituição de soft power e aumento de hard power” e... uma luz se acende. Uma quantidade enorme de informações esparsas encontra sua rede de fixação e a luz sistêmica inunda a compreensão. Faz-se a luz no meio da caverna dos acontecimentos sem nexo. Cria-se um enredo. 

Há, também, o conforto de obras como as de Jared Diamond (que não é historiador): a resposta a questões amplas. Por que um grupo humano entra em colapso? O que determina o sucesso de uma civilização? Quero enfatizar dois livros que estão na curva ascensional de sucesso: Sapiens e Homo Deus, ambos de Yuval Harari.

Yuval Noah Harari é um historiador israelense nascido em 1976. Sua carreira inclui formação em Oxford e docência na Universidade Hebraica de Jerusalém. Seus trabalhos e artigos anteriores já mostravam a ambição cronológica pouco comum.

 

Harari tem uma inteligência arguta e muito inovadora. Seu olhar é de uma objetividade que eu nunca havia encontrado antes. Comparados com ele, quase todos somos românticos, sonhadores, idealistas e piedosos. Não se trata da objetividade materialista como concepção de história, essa é trivial. É a objetividade de ver tudo sem as névoas da crença ou de valores.

 

O primeiro livro a encontrar o gosto geral foi Sapiens - Uma Breve História da Humanidade. Ali ele analisa a Revolução Cognitiva ocorrida há 70 mil anos. Como o Homo Sapiens se tornou o único sobrevivente entre os diversos tipos de Homo? Para ele, o papel da imaginação domina as sociedades humanas. Assim, diante da nossa discussão sobre leis de mercado, ele afirma que o capitalismo é uma religião, um sistema organizado de crenças que leva as pessoas a lutar por valores que, em si, não existem. Crédito, por exemplo, é uma crença parecida com o raio de Zeus ou a proteção de Jesus. O mesmo valeria para liberalismo, direitos humanos, etc.

 

O texto de Harari é criativo. Por décadas dei aulas sobre a Revolução Neolítica (a domesticação de plantas e animais) como um salto técnico que alavancou a humanidade. Ele, porém, trata a agricultura como um declínio. Sociedade de caçadores e coletores são imensamente mais livres e bem alimentadas. Sociedades agrícolas empobrecem a dieta e fazem surgir o Estado, os impostos e as pirâmides. Marcado por uma visão tecnológica que acredita que prédios monumentais são mais notáveis do que cavernas, reconheço que nunca medi o custo humano das grandes obras arquitetônicas.

O segundo livro de sucesso, Homo Deus - Uma Breve História do Amanhã, segue a mesma linha. Há reflexões sobre nossos medos ancestrais como a fome, a peste e a guerra. Há profecias sobre a ampliação do nosso limite biográfico. Lemos uma curiosa análise da simbologia histórica dos gramados à frente das residências. Sempre uma boa fórmula: um caso muito interessante colocado numa perspectiva histórica de centenas de milhares de anos e a busca de um elemento estrutural. 

Os dois livros estão destinados ao sucesso. Apresentam a fórmula que encanta o grande público. Haverá muitas críticas acadêmicas, especialmente se o sucesso aumentar. Livros bons fazem pensar. Estamos no meio da semana. Qual a sua decisão? 

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