Tudo por ela, versão Russell Crowe

O longa 72 Horas, de Paul Haggis, adapta thriller francês com Vincent Lindon e a bela e sexy Diane Kruger

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

Fale com ela, pedia Pedro Almodóvar em seu filme de mesmo nome. Tudo por ela, é o que move Russell Crowe em 72 Horas, o longa de Paul Haggis que estreou sexta-feira em cinemas de todo o Brasil. O filme é sobre marido que fica obcecado para tirar a mulher da cadeia. Ela foi presa, acusada de matar a chefe. Todas as evidências apontam para a sua culpa. Ele esgota os recursos legais. Quando vê que não existe mais o que fazer e que a mulher vai passar 20 anos presa - se conseguir sobreviver, pois já tentou se matar -, ele decide agir - e resgatá-la, o que não é fácil. Tudo por Ela, era assim que se chamava o filme do francês Fred Cavayé, com Vincent Lindon e Diane Kruger, que está na origem de 72 Horas.

Há dois anos, em conversa com o repórter do Estado, durante os Encontros do Cinema Francês, em Paris, o diretor Cavayé disse que o que havia de mais bonito nessa história era o amor desesperado do marido. Ele está tão convencido da inocência da mulher que, em nenhum momento, aventa sequer a possibilidade de que possa ser culpada. E, por isso mesmo, tudo arrisca por amor, até virar um criminoso.

Russell Crowe é um dos grandes astros da atualidade. É um ator intenso, para se dizer o mínimo. Como na maioria das vezes, ele não necessita de grandes cenas para brilhar. Crowe é melhor quando sub-representa, ou quando evita representar. Menos é mais. Há uma bela cena entre Brian Dennehy, que faz seu pai, e ele. O pai, por acaso, descobre o plano do filho para tirar a mulher da cadeia e fugir com ela. Não diz nada, mas fornece ao filho um elemento para que ele saiba que tem conhecimento de tudo. Abraçam-se em silêncio. A palavra "Good-bye" (Adeus) ganha uma ressonância dilacerada.

Fred quem? Cavayé começou como fotógrafo. Ele sempre quis ser cineasta, mas seguiu outro percurso. Ao decidir realizar seu sonho, começou escrevendo curtas, depois para TV. Paul Haggis foi roteirista antes de ser diretor. Ele fez história em Hollywood ao se transformar no único roteirista que tem o crédito oficial por dois vencedores do prêmio de melhor filme - Menina de Ouro, de Clint Eastwood, e Crash, que ele próprio realizou. A parceria com Clint prosseguiu no díptico A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima e Haggis, talvez para provar que não escreve só filmes de autor, assina também o roteiro de Cassino Royale, que marcou a estreia de Daniel Craig no papel de 007 (e é, isoladamente, o maior sucesso de toda a série de aventuras de James Bond).

É curioso ver como Haggis trabalhou no remake de Tudo por Ela. Ele não apenas segue fielmente o roteiro original, como dá a impressão de refilmar a produção francesa plano a plano - até o momento em que o casal em fuga passa pela guarita do pedágio. A partir daí, 72 Horas muda em relação ao original, não necessariamente para melhor.

Sucesso. Embora sem números definitivos para confirmar o que se baseia na observação, 72 Horas foi o filme que mais atraiu público aos cinemas entre as estreias da última sexta-feira, véspera de Natal. Em São Paulo e Porto Alegre, dois exemplos, formaram-se extensas filas para assistir ao novo Russell Crowe. O carisma do astro, com certeza, contribuiu para isso, mas o filme não teria sido tão atraente para as grandes plateias, se não tivesse romance - e suspense. Crowe é tão mais conhecido do público que muita gente se lembra das situações, mas seria incapaz de dizer quem é o ator (Vincent Lindon) do original.

Elizabeth Banks não é bela nem carismática como Diane Kruger, mas tudo gira em torno dela, é feito por ela. Antes de jogar sua vida para o alto - por amor -, o personagem de Russell Crowe é professor de literatura. Em apenas uma cena o vemos ministrando uma aula. Ele propõe aos alunos uma conversa sobre Dom Quixote. O célebre romance de cavalaria de Miguel de Cervantes y Saavedra versa sobre o quê. Preste atenção na cena. Na verdade, o que Crowe diz sobre o Quixote aplica-se a seu personagem em 72 Horas. O novo Paul Haggis é bem razoável.

72 HORAS

Nome original: The Next Three Days. Dir.: Paul Haggis. Gênero: Suspense (EUA/2010, 122 min.) Censura: 14 anos.

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