Tudo pode dar certo

Amarga é a noticia de que o cine Bela Artes vai desaparecer. Perdeu o patrocínio do banco, pode fechar. Sou belas-artesiano há décadas, mais do que vocês podem imaginar. Sei dos defeitos das salas, mas elas são importantes, pertencem ao circuito cultural paulistano. Esta é o que se chama crônica-reportagem. Volto à minha origem. Voltemos àdo cinema também.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

A Rua da Consolação ainda era estreita, porém o cine Ritz já tinha ocupado seu lugar no futuro, com um recuo que formava diante dela uma pequena praça com a Avenida Paulista. Ficava em frente ao Riviera, um point dos descolados, dos intelectuais. Talvez isso tenha influenciado a frequência sempre diferenciada daquele cinema. Não havia ainda o "buraco da Paulista", como foi chamada a ligação com a Avenida Dr. Arnaldo e a Rebouças e os bondes Avenida 3, Pinheiros e Vila Madalena tinham o ponto bem em frente do cinema, trafegando nos dois sentidos.

Havia então, em São Paulo, dois cines Ritz. O outro era o da Avenida São João, entre o Paissandu e a Avenida Ipiranga. Foi reformado e ganhou o nome de Rivoli, era de luxo, poltronas numeradas e o filme de estreia foi A Volta Ao Mundo em 80 Dias, em Todd-AO, sistema tela larga patenteado por Mike Todd, o milionário marido de Liz Taylor que morreu em um desastre de avião, depois de ter dado a ela o maior diamante do mundo. Como crítico de cinema e repórter, cobri a inauguração do cinema, uma criação de Paulo Sá Pinto, exibidor audacioso, apaixonado por cinema até o último fio de cabelo.

Quando a Consolação foi alargada no fim dos anos 60, em 1968 ou 69, pouco depois o Ritz, que tinha antecipado a duplicação da rua, daí o recuo, mudou de nome, passou a ser Trianon. Nesse momento, o centro de São Paulo começou a se deslocar da Barão de Itapetininga, Sete de Abril, Praça Ramos, República e Ipiranga para a região da Paulista, onde os prédios passaram a tomar o espaço dos casarões. Os bondes saíram de circulação. O Trianon, por um bom tempo, continuou a ser o cinema dos diferenciados e as sessões de sexta, sábado e domingo reuniam parte do público que frequentava a Cinemateca, o Cine Coral, o Jussara, o Rivoli. Foi no Coral que me vi lado a lado com Catherine Deneuve por cinco minutos. E daí? Depois das sessões do Trianon, as pessoas iam para a Rua Augusta, para os restaurantes Patachou ou o Flamingo, ou para lanchonetes como o Simbad, o Longchamps, o Frevinho, o Hot-Dog, a Casa de Chá Yara, o Frevo da Oscar Freire.

Sabe-se lá as razões, talvez a crise pela qual o cinema passou na década de 70, talvez pela inconstância das pessoas, o Trianon começou a ser abandonado pelos seus fiéis e entrou em decadência. Certa época, lembro-me bem, quase foi fechado. Então, de repente, tudo virou, porque em São Paulo as coisas são assim. O Trianon desapareceu e em seu lugar surgiu o Belas Artes, com duas salas, a Villa-Lobos e a Portinari. Acho que havia também a Mário de Andrade, mínima. Um lugar bom para continuar vendo cinema, nós que gostamos do ritual da sala, do escurecer, da projeção, da cortina (cadê as cortinas, gente?)

Nova crise e o Belas Artes se viu ameaçado. Agora era plena época em que os cinemas se refugiavam nos shoppings, os novos centros de convivência. Início do desaparecimento dos chamados cinemas de rua. Momento em que soubemos que as grandes salas estavam condenadas. Mas veio uma nova tentativa, uma restauração, e o cinema da Consolação se subdividiu em várias salas de diferentes tamanhos, com o acréscimo de um bar. O Belas Artes chegou com avanço apontando para os multiplex, salas menores, quase íntimas, gostosas.

Hoje são seis salas, Aleijadinho, Mário de Andrade, Carmen Miranda, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari, Villa-Lobos, ameaçadas de desaparecimento porque o banco HSBC, que patrocinou o cinema por anos, retirou o patrocínio. Eles dizem ter seus projetos culturais e é uma pena que um dos espaços mais tradicionais e históricos do cinema paulistano esteja sendo abandonado neste momento por um banco de grande porte e poder de fogo. Mas há uma luzinha no fundo do túnel, porque paulistano é solidário e, quando mexem com seus ícones, ele é capaz de se mobilizar. Pensando numa tradição da cidade, "vamos ao cinema e depois jantar fora", Marie France Henry, do La Casserole, há mais de meio século no Arouche, juntou um grupo de restaurantes da cidade e está sendo lançado um vale-cinema. Você janta num dos restaurantes, faz uma doação a partir de 5 reais e recebe um vale para o Belas Artes. Utiliza numa sessão, carimba e ao voltar ao restaurante ganha uma sobremesa. O dinheiro doado vai para um fundo de socorro ao cinema. Os restaurantes são Arábia, Arábia Café, Amadeus, Eñe, Ici Bistrô, Tappo Trattoria, Diner 210, Tordesilhas, Mestiço, Dona Onça, Adega Santiago, Cosi, Duí, La Casserole, Martin Fierro, La Frontera. "Não vai resolver", diz Marie France, mas se ganha um pouco de tempo até se encontrar uma solução." Puxa, acabo de saber que mais um cinema fechou, o Lilian Lemmertz.

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