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Tudo pela amizade

Gus Van Sant fala da nova parceria com Matt Damon em 'Terra Prometida'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2013 | 02h15

E o Festival de Audiovisual Ambiental prossegue no Rio exibindo, em cinco diferentes seções, programas que visam responder a importantes questões artísticas e políticas. Como diz a organizadora do evento, Suzana Amado, a discussão ambiental é necessária e engloba todas as demais questões políticas. Mas ninguém quer ver filme chato nem didático. Antes de ser 'ambiental', o filme tem de ser 'cinema'.

O festival termina amanhã com o anúncio dos vencedores da mostra competitiva - e a exibição de Os Meninos de Kinshasa, do belga Marc-Henri Wajnberg, sobre garotos africanos rejeitados pelas próprias famílias por serem considerados feiticeiros. Richard Fleischer abordou o assunto em chave de ficção, há 34 anos, em Ashanti. É curioso que somente agora o tema volte a mobilizar o cinema. Mas há outro programa importante no encerramento do Filmambiente. O festival exibe, numa mostra sugestivamente chamada de 'Será mesmo ficção?', o novo longa de Gus Van Sant. Terra Prometida, Promised Land, será lançado somente em DVD no Brasil, pela Paramount, no mês que vem.

Atrativos não faltam - e, além do diretor, há o elenco, integrado por Matt Damon e John Krasinski, que assinam o roteiro, mais Frances McDormand, e o próprio tema, o fracking. Você não sabe do que se trata? Na entrevista concedida por e-mail - do seu iPad -, o próprio Van Sant admite que o assunto lhe era estranho antes da filmagem. Ele o descobriu filmando. Fracking é um método especial para extração de gás natural. É considerado alternativa diante do esgotamento de reservas facilmente acessíveis, mas o uso de produtos químicos impõe riscos e gera questionamentos entre políticos e ambientalistas.

Gus Van Sant, de 60 anos, 32 filmes, é um diretor que alterna obras de um perfil mais experimental - Gerry, Elefante e Paranoid Park - com outras de dramaturgia mais tradicional, como Gênio Indomável, que Matt Damon e Ben Affleck, além de interpretar, também escreveram (e ganharam o Oscar da categoria em 1997).

Matt Damon queria dirigir esse filme, mas, terminou recorrendo a você, como amigo. Como o nome de Gus Van Sant é uma grife, um autor, não o imagino fazendo um filme só por amizade. O que havia no roteiro para que você assumisse a direção?

Entrei nessa aventura por causa de Gênio Indomável, que sempre achei que tinha uma história muito interessante, das melhores que contei em minha carreira. Terra Prometida tem personagens diferenciados e o seu contexto político é outro, mas me lembrou Gênio Indomável. Foi por isso.

Matt escreveu o roteiro com John Krasinski, como havia feito anteriormente com Ben Affleck em Gênio Indomável. Você precisou mudar alguma coisa, para imprimir sua marca, talvez?

Não para colocar minha marca, mas ambos os roteiros tinham sugestões que já eram minhas, porque sempre me mantive em contato com Matt, e elas chegaram ao roteiro final, que filmei. Mas, para ser honesto, o roteiro foi uma criação dos autores - de Matt e Ben (Affleck) em Gênio, de Matt e John (Krasinski) aqui.

Gosto muito dos filmes do começo de sua carreira - Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, que considero sua obra-prima. Mas você mudou bastante. Às vezes é clássico, mas também evita o classicismo, desconstruindo suas narrativas. Quem é, afinal, Gus Van Sant, e por que mudar tanto?

Mudo em função das origens dos roteiros e, às vezes, eles são realmente mais experimentais. Em geral, esses são os roteiros dos quais participo da escrita, e os outros, mais tradicionais, são oferecidos a mim e aceito porque encontro coisas atraentes neles. É interessante, mas muitas vezes são esses que me desafiam mais. Viram testes para mim mesmo, se vou conseguir o que imagino que me proporcionam.

Onde você filmou Terra Prometida? Algumas cenas me pareceram muito 'documentárias', com figuras da Terra. Em caso afirmativo, como conciliou os não profissionais com os astros e estrelas?

Filmei poucas milhas a nordeste de Pittsburgh, na Pensilvânia. Algumas pessoas são realmente moradoras da região e, por isso, parecem tão reais em cena. Não vejo problemas em trabalhar com profissionais e não profissionais, mas, em geral, faço uma cena de cada vez, sem forçar a integração.

Seu filme trata de fracking, que é um tema muito controverso. O que você sabia sobre o assunto? A filmagem mudou sua percepção?

Não sabia nada até ler o roteiro. Quando chegamos a Pittsburgh, descobri que é uma área central para esse tipo de negócio e que estava ocorrendo ao nosso redor o tempo todo. Mas creio que o fracking é pretexto para falarmos da manipulação das corporações, mais do que do próprio fracking. Os personagens, como integrantes das corporações, jogam um certo jogo que é muito revelador. No limite, os interesses em jogo favorecem o capital, mais que os indivíduos, e é disso que Terra Prometida trata.

O filme passou em Berlim e recebeu críticas mistas, algumas muito negativas porque teria um toque muito forte de Frank Capra. O que você pensa disso?

Que as pessoas entenderam, mesmo não aceitando. Sim, estávamos tentando nos apropriar de um idealismo que Capra representou no cinema...

Entre Gênio Indomável e este filme, Matt Damon virou um astro, graças, especialmente, à série Bourne. Alguma coisa mudou na relação de vocês?

O fato de ele ter virado astro não mudou nada, creio. Matt é muito consciente e preocupa-se muito com questões políticas e ambientais. E é fiel aos amigos, o que é muito importante.

Em Berlim, você disse que Bernardo Bertolucci e O Pequeno Buda foram influências muito grandes. Posto que são filmes muito diversos, você pode explicar o que quis dizer?

Não apenas O Pequeno Buda, mas toda a colaboração de Bernardo com (o diretor de fotografia) Vittorio Storaro. Não é nada específico, e certamente não tem nada a ver com a história nem com os personagens. É mais uma maneira de mover a câmera, de iluminar.

Você é um participante habitual em Cannes, mostrou Terra Prometida em Berlim. O que representam os grandes festivais?

Festivais são pontos importantes de encontro e discussão, e agora mais do que nunca. Como os estúdios selecionam muito seu material e investem em blockbusters, é preciso buscar dinheiro para outros projetos nesses foros. Junte o dinheiro com a imprensa e os festivais são fundamentais.

Você se define como um diretor independente?

Acho que sou independente, mas os limites são indefinidos e, às vezes, você se envolve com as corporações mesmo quando se mantém longe dos estúdios. A indústria do cinema virou um monstro de muitas cabeças.

Você deu a primeira chance a muitos atores jovens. A lista é longa - River Phoenix, Keanu Reeves, Matt Dillon, Matt Damon... Por quê?

O bom de trabalhar com elencos jovens é que eles não têm preconceitos nem uma imagem definida para o público. Os personagens saltam da tela.

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