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Tudo o que eu não fui

Com o entusiasmo dos meus 15 anos ousei dizer ao meu pai, que eu adorava, que queria ir para São Paulo fazer o colegial para poder tentar entrar na faculdade

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 02h00

“Há mais ou menos 70 anos, morávamos no Estado do Rio, eu estava cursando o ginasial quando li que em São Paulo a Cásper Líbero estava inaugurando a faculdade de jornalismo. Com o entusiasmo dos meus 15 anos ousei dizer ao meu pai, que eu adorava, que queria ir para São Paulo fazer o colegial para poder tentar entrar na faculdade.

Ele me olhou nos olhos e disse: ‘Rita, jornalismo é profissão para homem’. Naquela época, fazia parte da educação não contestar os nossos pais e o meu desaponto foi tão grande que me deu a coragem necessária para dizer a ele que eu iria me contentar com o ginasial. E assim foi.

Hoje, aos 89 anos, tenho um caderninho onde registro os fatos marcantes da minha vida. Às vezes ele é meu muro de lamentações, onde lavo minha alma, às vezes é simplesmente onde eu agradeço as coisas boas que me acontecem. Talvez esse caderno seja minha pequena forma de ser jornalista.

Hoje, querida, quando leio as suas crônicas no jornal, todos os domingos, não me sinto frustrada. Muito pelo contrário: me sinto plenamente realizada porque vejo em você tudo aquilo que eu não pude ser.”

Essa foi a carta que minha avó me escreveu quando lancei o meu último livro. Não sei explicar muito bem o que senti quando abri o envelope branco que acompanhava o vasinho de begônias e li tudo isso. Um misto de honra e angústia, gratidão e revolta. Minha avó é uma das pessoas mais brilhantes que conheci nesse meu caminho tão supostamente povoado por pessoas tidas como brilhantes. Que bela jornalista Dona Rita teria sido. Quanta coisa o Brasil perdeu por não ter suas palavras estampadas nos jornais.

Suspiro e chego à conclusão de que o meu compromisso não é apenas o de honrar meu espaço, mas também o de lutar diariamente – sobretudo nos tempos tão sombrios que o Brasil atravessa – contra tudo o que nos faz caminhar para trás. Porque existe mesmo um fantasma que sussurra diariamente nos ouvidos das mulheres: você não está segura, seus direitos não estão consolidados, seu espaço não está tão garantido assim. Não descanse, moça, não descanse, fique alerta, não vacile. Vai por mim.

Não sabemos o dia de amanhã. Não sei o meu destino, mas enquanto eu tiver voz, enquanto eu tiver letras e enquanto eu tiver oportunidades farei tudo o que posso para honrar o espaço que deveria ter sido ocupado por tantas mulheres fantásticas que foram barradas em suas trajetórias pela mentalidade machista que segue nos assombrando até os dias de hoje: jornalismo é profissão para homem, engenharia é profissão para homem, pilotar aviões é profissão para homem. Não exagere, não fale demais, não levante a voz, não toque em temas nos quais você não deve falar, não se meta em política. Você é só uma moça. Sabe como é? Acontecia em 1943, acontece em 2018.

Dona Rita, hoje esse jornal também é seu. Hoje a coluna do Caderno 2 também é sua. Sua e de todas as mulheres cujos talentos foram barrados ao longo da vida. Sabe? Nunca fez tanto sentido ter chegado até aqui. Suas palavras estampadas nesse jornal, representando todas essas mulheres, nascidas nos anos 20, 30, 40, 50 (e quiçá 60, 70, 80, 90) e que, por alguma razão, não foram até onde seu potencial poderia levá-las, é, de fato, a coisa mais bonita que eu já publiquei por aqui.

Obrigada por se orgulhar de mim, mas o mérito é todo seu. Você, como mulher forte, criou minha mãe, que é coragem pura, e que, por sua vez, me criou para ser forte como você e corajosa como ela. A mim, só me cabe ser grata. Eu só estou aqui porque você está aí. E tenho certeza de que minha avó Ruth também está sorrindo em algum lugar. As poesias dela também nunca foram publicadas. Vocês não estão mais em silêncio. E eu garanto, como neta de vocês, que nunca permitirei que nós sejamos silenciadas. Obrigada por tudo.

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