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Tudo o que ele quer é ser amador

Jonathan Franzen, que agora lança Freedom, diz desconfiar do sucesso

Ed Pilkington, The Guardian Nova York, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Em agosto, Jonathan Franzen tornou-se o primeiro autor a aparecer na capa da revista Time, nos últimos dez anos. Sobre sua foto aparecem as palavras "O grande romancista americano".

Em seu famoso ensaio publicado na Harper"s, em 1996, Franzen deplorava a falta de nomes de destaque no campo da literatura como prova do declínio da importância da ficção de qualidade, portanto poderíamos pensar que ele esteja comemorando. Mas ele não se sente confortável com o rótulo. "Sempre odiei esta expressão, em grande parte por encontrá-la em contextos idiotas ou depreciativos."

Então assume um tom de zombaria: "Se estou trabalhando no Grande Romance Americano?" E responde, convencido: "Penso em parar por um ano, ir para a França e escrever um Grande Romance Americano."

O sarcasmo começou depois que Franzen expressou suas dúvidas quanto ao fato de seu último romance, As Correções, ter sido escolhido para figurar no clube de leitura de Oprah Winfrey, em 2001. Vendeu cerca de 3 milhões de exemplares e tornou o autor uma das vozes literárias mais importantes de sua geração, mas, por outro lado, ao menosprezar Oprah, também criou fama de "esnobe com um ego que o cega" (Boston Globe), um "sujeito bombástico e irritante" (Newsweek) e um "moleque mimado e impertinente" (Chicago Tribune).

Como resultado, deixou de escrever por mais de um ano. Desta vez, Franzen está mais preparado. "O que quer que aconteça, não vai me atingir", afirmou sobre seu novo livro Freedom (Liberdade). Na realidade, a obra, que levou nove anos para ser concluída, teve uma recepção entusiástica em todos os sentidos.

The Economist comparou-o a Paradise Lost; Sam Tanenhaus, do New York Times, garantiu que se trata de uma obra-prima da ficção americana. Barack Obama leu uma das primeiras cópias durante as férias. "Isso deveria acontecer depois dos 50. Devo estar perto do fim da minha carreira produtiva. As pessoas começam a me aprovar."

Estúdio espartano. Fui encontrá-lo no seu estúdio espartano no Upper East Side, em Nova York. A salinha, mobiliada com uma mesa velha e um colchão bem ensebado, parece a cela de um monge. As paredes são nuas, com uma única estampa, e na cozinha mínima há apenas uma pequena frigideira.

O escritor não tem nenhuma relação com rock, lançamentos regados a champanhe ou escapadas tarde da noite que marcam as carreiras de Jay McInerney ou Bret Easton Ellis. Comparado a eles, Franzen parece professoral. Faz uma pausa para compor suas sentenças e respira profundamente. Enrola as mangas, tira os óculos e os observa. Nessa atitude pensativa parece haver uma crítica ao maçante mundo de hoje. O desafio à seriedade representado pela tecnologia, por exemplo, há muito tempo constitui um espantalho, e é expresso por um dos principais personagens de Freedom: "Era isso que me mantinha acordado à noite", disse Walter. "Esta fragmentação. Porque é o mesmo problema em toda parte. É como a internet ou a TV a cabo - nunca existe um núcleo, não há um acordo comum, há apenas um trilhão de bits de ruídos que distraem... Todas as coisas palpáveis, as coisas autênticas, honestas, estão se perdendo.""

Sem tentações. Na sua mesa de trabalho há fones de ouvido que apagam qualquer ruído e ele tirou o cartão do computador para não ceder à tentação dos jogos e ainda selou a entrada de rede para não poder se conectar à internet. Enquanto escrevia As Correções, usava até uma venda para não olhar o teclado.

O autor escreveu quatro romances, e cada um deles foi uma batalha épica. Levou seis anos para terminar The Twenty-Seventh City (A 27.ª cidade), de 1988; Strong Motion (Movimento forte) cinco; As Correções (2001) sete; e Freedom quase uma década.

Comparado a John Updike ou Philip Roth, que escreviam com a regularidade de uma linha de produção industrial, Franzen parece sofrer de bloqueio angustiante. Qual é o problema? "Toda vez que começo um romance, sinto como se nunca tivesse escrito um livro antes. Foi assim da primeira vez, e continua sendo assim até hoje." Pausa, suspiro. "Sinto-me até certo ponto orgulhoso por não ser um romancista profissional, por ser aparentemente um eterno amador. Não quero ser o sujeito supercompetente."

O último romance não só levou nove anos para ser concluído, como, neste período, passou pouco mais de um ano escrevendo de fato. Relembra dessa fase quase com alegria. "A maior parte daqueles meses foi um verdadeiro paraíso. Eu me sentia infeliz na maior parte do tempo, mas infeliz da maneira mais feliz." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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