Tudo de ouvido

Um produtor feito de instinto

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Pupillo guia-se pela intuição. Não lê partituras e justamente por isso, pelo fato de ser dotado de uma musicalidade saliente, recebeu um elogio de uma grande referência em sua carreira. "Em uma viagem para Londres, numa homenagem aos Mutantes, o seu Wilson das Neves (baterista) ficou impressionado por eu tocar daquele jeito sem ler nada. Vindo dele, é uma honra."

Seu maior estudo é a cabeça aberta. Ele fala sem parar e ouve com respeito opiniões alheias. Nenhuma informação parece descartável. Em sua casa, quase 2 mil vinis, boa parte empilhada no chão, e o computador, constantemente ligado, são suas apostilas. Se interessa por gente que ainda engatinha na música, sem pré-julgamentos, garimpa raridades, como as composições do esquecido Noriel Vilela, e ignora fronteiras e gêneros. "Já ouviu isso aqui, monstro?", pergunta ao percussionista Gustavo da Lua, botando pra tocar uma banda de rock da Nigéria.

Com ouvidos profundos como plataforma de petróleo, Pupillo sabe que ainda há muito a escutar, a aprender e a criar. "O computador é meu violão", comenta revelando bases e temas já prontos de seus novos projetos. Seu apartamento virou multifuncional. Além de lar, é também uma espécie de QG informal de músicos em estado de ebulição. "Essa semana estavam aqui Seu Jorge, Lirinha... Direto a galera vem pra cá, (Jorge) Du Peixe, Céu...".

Outro endereço certeiro para Pupillo é o estúdio do amigo Yuri Kalil (leia ao lado). Lá, ele gravava a primeira faixa, Distraída Solidão, do novo disco de Junio Barreto, álbum no qual também atua como produtor. A função também já se tornou comum para o baterista. Com Otto, dividiu a produção de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, um dos melhores álbuns de 2009. Da mesma maneira, trabalhou com o pessoal do Mombojó, cujo disco deve ser lançado em maio.

Cercado de amigos, Pupillo vai descamando suas peles. O projeto mais recente chama Almas, banda em que toca com o guitarrista Lúcio Maia (Nação Zumbi, Maquinado e Los Sebosos Postizos), o baixista Antônio Pinto e Seu Jorge. O disco do grupo, gravado em 2008 em duas semanas, estava na gaveta devido à falta de tempo dos integrantes para se dedicarem ao projeto. Será lançado em junho nos Estados Unidos, para onde, acompanhados de Gustavo da Lua, eles seguem, um mês depois, para uma turnê de um mês. Em agosto, o disco, composto apenas por covers, chega ao Brasil, com um repertório absurdamente variado e com interpretações autênticas. Na lista, temas de Nelson Cavaquinho (Juízo Final, que havia entrado na trilha de Linha de Passe), Michael Jackson (Rock With You), Vinicius e Baden Powell (Tempo de Amor), Tim Maia (Cristina), João Donato (Cala Boca Menino) Noriel Vilela (Saudosa Bahia) e Kraftwerk. "Tenho o maior respeito, principalmente quando se trata de mexer na música dos outros. Você tem que fazer algo diferente da gravação original, mas sem abusar, se não vira um Frankstein".

Outro disco que teve o toque de Pupillo, e deve ser lançado até junho, é o do Los Sebosos Postizos, banda formada com os comparsas da Nação Zumbi para tocar composições de Jorge Benjor. As músicas, que circulavam há tempos na internet em registros ao vivo, foram gravadas com qualidade e estão sendo mixadas por Mario Caldato. Entre os temas, Os Alquimistas Estão Chegando, Jovem Samba e O Nascimento de Um Príncipe.

Por fim, com o vento de seus moinhos criativos soprando pela liberdade, Pupillo começou a mandar para amigos letristas as bases do segundo CD do 3NaMassa, dividido com Rica Amabis (teclados) e Dengue (baixo). As composições ganharão as vozes de Céu, Nina Becker, Ana Cañas, Marina de la Riva, Pitty, entre outras, desta vez com letras de Du Peixe, Arnaldo Antunes, Otto, Junio Barreto e Fábio Trumer.

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