'Tudo começou de trás para a frente', afirma o diretor de Faroeste Caboclo

Fabrício Boliveira vive nas telas a saga do anti-herói criado por Renato Russo

LUIZ CARLOS MERTEN, FLAVIA GUERRA, LUIZ CARLOS MERTEN, FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h10

René Sampaio tinha 14 anos quando ouviu, pela primeira vez, a música de Renato Russo. Foi no rádio, em Brasília. "Era um dia beeeem seco e eu estava deitado no chão da sala. Achei incrível. A música, a história, o desfecho e, principalmente, que ela não acabava nunca. Quis desde sempre fazer esse filme, até porque na época já queria ser diretor." Anos mais tarde, ele estava no Festival de Paraty quando encontrou a produtora Bianca de Felippes. Conversaram sobre possíveis projetos e René lhe disse que Faroeste Caboclo era o filme que gostaria de fazer, mas - que pena! - os direitos não estavam mais disponíveis. René até hoje não sabe direito o que houve, mas não demorou muito e a produtora ligou para dizer que os direitos eram deles.

O filme estreia na cola da cinebiografia de Renato Russo por Antônio Carlos Fontoura. "Nosso filme sempre esteve apontado para 30 de maio. A data inicial do dele era janeiro. Não sei avaliar o que significa ambos estarem estreando quase juntos. Mas isso cria um sentimento positivo, uma curiosidade, acho."

Como desejo de realização, o diretor confessa que o filme sempre existiu para ele de trás para a frente. "A cena do duelo final, clímax da música, foi o motivo primeiro pra querer fazer o longa. Poderíamos ter adaptado de outra maneira, como uma troca de tiros entre gangues ou algo menos estilizado, mas o barato era fazer o faroeste caboclo."

As referências de Sampaio estão ligadas ao spaghetti western, por mais que admire John Ford e Sam Peckinpah. "Como os italianos, acho que a releitura latina das convenções do gênero aproxima essa cinematografia da nossa realidade. Três Homens em Conflito e Era Uma Vez no Oeste estão na minha lista de filmes preferidos." A história de amor étnica veio depois. "O meu entendimento do filme, e o dos produtores, sempre foi que esse casal teria grandes diferenças. Uma delas poderia ser, como foi, étnica. Testamos muitos atores, mas o Fabrício (Boliveira) tinha a energia exata pro João que estávamos procurando."

E as cenas de sexo? "Quando os personagens transam na casa do pai da Maria Lúcia, de uma maneira mais crua, filmamos em dois ou três takes, com câmera na mão. A cena depois do beijo no píer, que é mais lúdica, tem planos mais fechados e foi feita aos poucos. Ísis (Valverde) encarna a própria magia do cinema. Sua entrega, e a do Fabrício, o carinho que um personagem tem pelo outro, foram fundamentais. Foi tudo muito intenso.

O longa Faroeste Caboclo deve ser o único filme que, ao final, em vez de se levantar assim que os créditos entram na tela, o público não só fica até o final dos mais de nove minutos de letreiros como ainda canta junto. Mérito da canção de mesmo nome composta por Renato Russo nos anos 80, que se tornou clássico do rock brasileiro e inspirou a produção que estreia agora sob grande expectativa.

Para se ter uma ideia, somente o trailer do filme foi visto na internet por mais de 2 milhões de pessoas. Dirigido por René Sampaio, que é natural de Brasília e, assim como Russo, sempre quis fazer da canção um filme, Faroeste Caboclo segue a epopeia do lendário João de Santo Cristo, mas toma algumas liberdades narrativas necessárias e acertadas, como desenvolver mais na trama o romance entre Santo Cristo e Maria Lúcia (Ísis Valverde), que na trama é filha de um senador (vivido por Marcos Paulo). Outra é a escolha de seu protagonista, o ator baiano Fabrício Boliveira, que tem a responsabilidade de dar vida ao herói que gerações imaginaram que cara teria. "Nós mesmos não sabíamos como ele seria, nem que seria negro. Muitos fizeram o teste. Mas Fabrício foi o melhor e mereceu o papel. Ele é perfeito como Santo Cristo", disse Sampaio. 

Já Boliveira, que conheceu a canção por meio de uma namorada, acredita que este papel é oportunidade de dialogar com o público. "Santo Cristo é a cara do brasileiro que luta contra o preconceito", comenta o ator, que ganhou fama ao protagonizar a minissérie Suburbia, de Luiz Fernando Carvalho.  Sobre Faroeste, Legião Urbana, o Brasil, preconceito e cinema, o ator falou ao Estado. 

Para você, sobre o que é

Faroeste Caboclo? 

É um retrato do que todos somos. Do negro, do nordestino pobre, daqueles que construíram a nossa história, nossas cidades, com sua mão de obra. Veja São Paulo e Brasília. É isso.

Este é um filme sobre o qual há muita expectativa. Sente o peso de levar a história ao cinema?

Sim. Mas o cerne da música e da obra do Renato está na tela. Falamos de intolerância, do respeito às diferenças, de racismo, política. Brasília é um microcosmo do Brasil. Tudo que ocorre lá a gente pode ampliar para o País. Lá é concentrado. O fato de haver tanto poder faz com que não exista poder nenhum. 

Como é viver o primeiro protagonista no cinema?

Maravilhoso. É como se eu fosse um recorte desta história toda. É a oportunidade de poder dialogar, de falar de novos conceitos e questionamentos. Esta história é mais que uma West Side Story. É um pouco de O Homem que Virou Suco. 

É sobre a formação do Brasil? 

Sim. É sobre como nós produzimos nossa história e também nossos monstros, sobre como o caráter de um cara vai sendo deformado. Santo Cristo é tanto o menino do sertão quanto um menino de uma favela do Rio, para quem é dito desde sempre que pegar em armas vai ser sua única chance de sobreviver. Ele não quer, mas o negócio o cerca de novo. É de como a sociedade diz: "Você não pertence a este lugar" - como disse e ainda diz para mim também.

Já foi alvo do preconceito

que Santo Cristo sofre?

Muitas vezes. Ainda sou. No Rio, onde moro hoje, vivo sendo parado em blitz, e sempre ouço: "Faz o que da vida, negão?" É como se minha cor e minha presença não estivessem de acordo com o espaço. Desde meus 18 anos tenho carro! É minha realidade. Se eu não tivesse a sorte de poder frequentar um restaurante, de ter um carro, talvez tivesse de me contentar em estar esmagado em alguma situação, envolvido com o tráfico para tentar ter alguma ascensão. Isso porque desde muito cedo nos dizem: "Nasceu preto, pobre, nordestino? Vai morrer pobre. Seu sotaque é risível". É muito cruel. E voltamos à questão do espelho e de como este País não se enxerga e não diz para si mesmo: eu sou negro, índio e branco. Somos tudo.

Renato falava muito disso.

Exato. Renato fala para uma época da vida, de descoberta, quando começamos a nos questionar. São coisas que não se resolvem na adolescência, mas que nascem nesta fase. Canta nossas questões brasileiras. Gritou tudo que gritamos até hoje.

Apesar de faroeste, não há

mocinho perfeito neste conto.

Exato. Não é maniqueísta. É preciso olhar com distanciamento e entender o ponto de vista de Santo Cristo. Ele faz suas escolhas. Algumas erradas. Outras acertadas.

O que Santo Cristo e Renato têm em comum?

Os dois são trovadores solitários. Traçaram seus caminhos, mas o destino deles era grande. No caso de Santo Cristo, a situação o leva. Eu o comparo a Édipo, o herói trágico, O oráculo diz que vai se dar mal. Mas ele ainda quer traçar seu destino. Santo Cristo também.

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