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Tudo Azul. Ou Não

Cinema Transcendental, de Caetano Veloso, é um clássico de 1979 que chega amanhã às bancas

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Quando Caetano Veloso lançou Cinema Transcendental - o álbum de 1979 que chega amanhã às bancas dentro da série Coleção Grande Discoteca Brasileira Estadão - vivia o que alguns críticos chamavam de "fase azul", ironia com o período mais deprê de Pablo Picasso. Perguntado sobre o motivo de aparecer de costas na capa do disco, o cantor disse que resolveu colocar aquela foto, feita casualmente numa praia baiana, para que as pessoas se interessassem pelo que ele estava vendo. "Não por me ver apenas. Queria que elas soubessem que eu estava vendo umas coisas lindas", disse ao Jornal da Tarde.

De fato, pelas letras das canções, Caetano via "beleza pura" - título de um dos hits do disco, gravada antes pela Cor do Som - em tudo naquela fase. "Tudo é filtrado ali/ Naquele espaço azul/ Naquele tempo azul/ Naquele tudo azul", dizia na letra de Os Meninos Dançam, homenagem aos Novos Baianos, que encerra Cinema Transcendental.

Houve, no entanto, quem interpretasse aquela foto como um dar de costas ao Brasil. Caetano, na época, bateu muita boca com a imprensa, já pelas críticas a seus álbuns anteriores, Bicho (1977), que abria com Odara, e Muito - Dentro da Estrela Azulada (1978). O show de Cinema Transcendental era discursivo, levando-o a confrontar o público que reclamava da falação e pedia para ele cantar.

Enfim, havia muito azul em torno dele, nas capas dos discos, nas letras das canções. Numa fase em que a repressão militar ainda pegava pesado, Caetano queria bailar para seu corpo ficar odara e chamou os críticos de racistas e preconceituosos, porque não gostavam de dançar. Enfim, passou a fase das patrulhas ideológicas e ficaram belas canções, como Sampa, Terra, Alguém Cantando, Um Índio.

Sucessos. Cinema Transcendental é um disco de odes à beleza com um punhado de êxitos, como Lua de São Jorge, Oração ao Tempo, Menino do Rio, Beleza Pura, a memorialista Trilhos Urbanos e o xote existencialista Cajuína, em que evocava Torquato Neto. Duas das faixas mais eróticas não são dele: O Vampiro é um clássico de Jorge Mautner e Elegia, adaptação de poema de John Donne por Augusto de Campos, musicado por Péricles Cavalcanti.

O disco teve a participação de Dominguinhos, Perinho Santana e Tony Costa. A Outra Banda da Terra - formada por Tomás Improta, Arnaldo Brandão, Vinicius Cantuária e Edu Gonçalves, o Bolão - já acompanhava Caetano na turnê de Muito e dividiu com ele os arranjos de base do disco. Com Cinema, o compositor encerrou sua década mais agitada com grande sucesso de vendas. Foi a primeira virada comercial de um artista que até então só dava prestígio para a gravadora.

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