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Tudo azul?

Minha amiga - vamos chamá-la de Silviane - deve ter adorado essa notícia de que num rio de São Paulo foram encontrados patos verdes.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h14

Ou por outra: diante do achado, minha amiga Silviane deve estar dividida entre sentimentos opostos. De um lado, criatura delicada e sensível que é, imagino que tenha ficado arrasada ao saber que as aves só adquiriram tal coloração por terem nadado em águas nas quais houve criminoso despejo de esgotos. De outro, porém, o coração novidadeiro da Silviane há de estar jubiloso com o fato talvez inédito de que agora existem patos verdes a ciscar na superfície do planeta. Caberá, portanto, à minha amiga, e só a ela, decidir se fica triste ou alegre com o que leu na internet.

Um tanto constrangido, mas escorado em sólidos antecedentes, eu apostaria na segunda hipótese. Conheço pouca gente mais ligada numa bizarria que a Silviane. E não estou sozinho nesse parecer. Uma de nossas amigas comuns - vamos chamá-la de Nini -, sua colega de escola na adolescência, conta que a doce criatura sonhou um dia ter um cachorrinho, sem, contudo, mover um dedo para consegui-lo. Bastava-lhe possuir uma representação física, ainda que inanimada, do totó que abanava o rabinho na sua imaginação: catou uma sacola velha, proveu-a de coleira e saiu arrastando por aí o novo companheiro, por alguma razão batizado Carlos Alberto.

No ventre de Carlos Alberto, Silviane acondicionou a miscelânea que em geral recheia uma sacola de mulher. Tudo aquilo e mais o radinho de pilha que o pai, em dia de jogo, se pôs a procurar desesperadamente pela casa. Está aqui, confessou por fim a Silviane, que impôs condição:

"Depois você devolve, o Carlos Alberto não passa sem música!".

Salto no tempo. Silviane tem agora vinte e poucos anos, está casada e vai receber para jantar uns amigos do marido, gente de certa cerimônia que ela ainda não conhece. Uma empreitada de risco, pois a jovem senhora está a anos-luz de se tornar a mestre-cuca que veio a ser, ao preço, diga-se, de fragorosos desastres culinários - o primeiro deles ocorrido naquela noite, digna de figurar nos anais da ciência & arte da gastronomia, como na sequência se verá.

Em busca de acepipes, foi a Silviane a um tradicional endereço paulistano, a Casa Godinho, onde se abasteceu do bom e do melhor, sob o olhar aflito de quem pagaria a conta, o marido, engenheiro com ainda frágeis alicerces financeiros. Na hora de pagar, exatamente, a curiosidade infrene da Silviane encalhou num mostruário cheio de pequenos frascos. Anilina comestível!

Precisar, não precisava, mas quem disse que minha amiga precisa de razões utilitárias para adquirir o que quer que seja? De nada adiantou o marido sacar, antes do talão de cheques, todo o seu racionalismo engenheiral; ao cesto de compras acrescentou-se um vidrinho de anilina, o mais diferenciado, claro, que habitava o mostruário.

De volta ao lar, lançou-se a Silviane à execução do menu que havia concebido para aquela noite, não sem antes paramentar-se com um dólmã trazido de Paris e acender um bastão de incenso da Caxemira, tudo isso sob luzes baixas e ao som do Concerto n.º 3 para Piano de Rachmaninoff, para não falar no teatral, crispado gestual com que se pôs a mexer o conteúdo das panelas, nem nos passinhos curtos e elegantes de bailarina a deslizar, como num palco, para catar aqui um pé de alface, ali um maço de salsa e cebolinha.

Foi também teatralmente que a Silviane levou para a mesa o tender fatiado, a farofa com frutas, o molho, a salada - e uma vistosa panela francesa que, num aparatoso gran finale, destampou ante os olhares dos convivas, os quais passaram bruscamente da curiosidade à mais boquiaberta perplexidade.

"Pois é, gente, resolvi fazer um arroz azul..."

Queixos caídos ao redor da mesa.

"Eu me dei conta de que não existe comida nenhuma dessa cor!"

(Não existe mesmo, confirma quem entende do assunto, o Luiz Horta, que há décadas come por prazer e por ofício.)

Depois do arroz azul, Silviane, que tal agora um pato verde?

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