Trupe nordestina faz a festa no Festival de Teatro de Curitiba

Considerada por muitos a mostra teatral mais importante do País - sem dúvida a de números mais grandiosos e a de maior repercussão -, o Festival de Teatro de Curitiba cada vez mais deixa de ser ´nacional´ para ser das regiões Sul e Sudeste. A cada ano fica mais reduzida a participação de grupos do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Para se ter idéia, nesta 15ª edição, que começou dia 16 e termina no domingo, há apenas um representante da Região Norte, um do Nordeste e seis do Centro-Oeste - e isso numa mostra de cerca de 230 espetáculos! Como se sabe, os 19 espetáculos apresentados na mostra oficial são convidados do evento e os artistas ganham cachê, estada, transporte, alimentação. Já na mostra paralela, os grupos se inscrevem para participar, pagam aluguel dos teatros, porcentagem de bilheteria e devem arcar com todos os custos de deslocamento e permanência na cidade. Evidentemente, quanto maior a distância de Curitiba, maiores os custos. Há um tratamento um pouco diferenciado para o teatro de rua. Como não têm bilheteria, a organização do festival oferece estada e alimentação, esta última somente nos dias em que não há espetáculo, pois nesses eles ´passam o chapéu´ e, portanto, arrecadam algum dinheiro. Talvez por isso, sejam de rua os espetáculos das regiões Norte e Nordeste. Num primeiro momento, tudo o que sabemos é que vêm de Arapiraca, cidade alagoana que fica a 174 km de Maceió, os três artistas que apresentam O Reencontro de Palhaços na Rua É a Alegria do Sol com a Lua no saguão do Memorial da Cidade. Antes de mais nada, impressiona a dimensão da roda que eles formam em torno de si. Mas logo se percebe o motivo: o Nordeste está muito bem representado. Sobre humor e música está fundado o espetáculo de forte empatia popular. Num dado momento, um palhaço silencia a multidão ao ´tirar´ música com afinação e beleza melódica, de garrafas d´água e chocalhos. Os palhaços Biribinha, Xelexeu e Mixuruca são artistas de primeira ordem. Muito aplaudidos, eles só estão no festival graças a um anjo, a baiana Glória Caffé, moradora de Curitiba, que eles chamam carinhosamente de ´mãe dos nordestinos´. Ela dá almoço aos que chegam de lá. Quando a reportagem chega à sua casa, ela está preparando o almoço. "Já tivemos mais de 20 pessoas nesse apartamentinho", lembra Glória. "Aqui a gente se sente em casa, é um pedacinho de Nordeste em Curitiba", diz Teófanes Silveira, Biribinha, que vem de uma tradicional família circense. "Subi no picadeiro pela primeira vez aos 7 anos." Teófanes Jr., seu filho, o Mixuruca, aos 6 anos. Glória e Eugênio Talma, o verdadeiro nome do palhaço Xelexeu, foram amigos de infância na Bahia. Mais tarde, ela mudou para Curitiba e estimulou o amigo artista a participar do festival. "Vim pela primeira vez em 2001, assisti a 42 espetáculos, um recorde, saí até nos jornais daqui." No ano seguinte, participou com um monólogo. Depois, mudou para Arapiraca, conheceu os Silveiras, fizeram parceria e, graças à insistência de Talma, numa segunda-feira, os três almoçam na casa da amiga Glória com a certeza de terem agradado ao público curitibano. "Foi difícil conseguir apoio para as passagens, mas a imprensa de Arapiraca protestou, deu força e a prefeitura nos deu um crédito, aí conseguimos outros apoios e viemos", diz Eugênio. "Sempre ensino meus filhos: jamais menospreze sua arte, nem deixe que o façam", diz Teófanes, justificando sua resistência em se lançar nessa difícil empreitada, aos 55 anos de idade e 48 de profissão. Na famosa Rua 15, a Rua das Flores, o público aguarda pela Cia. dos Notáveis Clowns, de Belém do Pará... que não chega! Por telefone, falamos em Belém com Rutiel Felipe, diretor musical do espetáculo Amor de Picadeiro. "Custamos para conseguir um caminhão cegonha para transportar a nossa Rural, a Berenice, que faz parte do espetáculo. É uma Rural 76, temperamental que só ela, você vai ver, no espetáculo." Ele conta que o grupo já viajou nessa Rural até Blumenau (SC) onde se apresentaram no Festival de Bonecos. "Mas achamos que ela não agüentaria novamente o tranco." Em negociação com o festival, eles conseguiram uma mudança de datas e vão se apresentar no último fim de semana da mostra. Com sete anos de existência, bem estruturado, o Teatro Fúria, de Cuiabá, apresentou Toma lá, Dá cá, A Justiça do 0x0, espetáculo com cenografia sofisticada, produção cuidada, mas cuja intenção crítica envolvendo o conceito de Justiça se perde na ruidosa concepção criada, propositalmente, na linha do grotesco. A maior parte dos custos saiu das reservas do grupo que se uniu à Cia. Confraria, também de Cuiabá e juntos alugaram uma casa. "As despesas são muito altas, mas acho que compensa estar nessa vitrine que é o festival", diz Giovanni Araújo, diretor do espetáculo.

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