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Trumpismo além de Trump

Está difícil escapar desta pergunta entre conhecidos:

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2016 | 02h00

“O homem tem chance? E se ele ganhar?”

“Não vai ganhar, é matematicamente impossível,” alguém sempre argumenta.

“E se ela tropeçar em alguma nova revelação?” é a resposta apreensiva.

No fim de semana, no idílio montanhoso ao norte do Estado de Nova York, participei de novas variações do diálogo sobre a campanha eleitoral. Visitando amigos que alugaram uma casa para fugir deste agosto escorchante, fui passear entre fazendas e pequenas cidades com casas do período colonial. A paisagem é belíssima, evoca tradição e continuidade, até que a gente encontra as placas fincadas com estacas na grama bem cuidada e o nome Trump. Meus anfitriões sacodem a cabeça, desconsolados.

Mas não há grande consolo em constatar as previsões de vitória de Hillary Clinton ou sinais de amadorismo na campanha de Donald Trump. O estrago está feito. Torcer pela vitória da experiência sobre o caos, da sanidade mental sobre o desligamento histérico da realidade é sensato, mas não vamos nos iludir. Trump deslocou para tão longe a fronteira do aceitável, que a campanha de Hillary Clinton agora conta com o apoio de gente que provocaria apoplexia num democrata liberal: veteranos da direita associados ao desastre militarista e fiscal dos anos de George W. Bush; políticos republicanos assustados com o efeito Trump sobre eleições estaduais; membros da comunidade de inteligência que consideram o direito constitucional à privacidade um mero contratempo.

As diferenças reais e consequentes no bloco de apoio a Hillary, na verdade, a turma do qualquer-um-menos-Trump, vão sendo diluídas. Cada vez menos se discute o conteúdo de políticas públicas cruciais para a esmagadora maioria da população. Impostos, Obamacare, programas pré-escolares, acesso à universidade, investimentos em infraestrutura abandonados há décadas, tudo vai sendo empurrado para as margens, com o centro ocupado pelo espetáculo diário de mais uma declaração absurda, extremista ou mentirosa. O maior perigo de Donald Trump, depois do risco Orwelliano de que ele chegue à Casa Branca, está na nova demarcação do território do possível em política.

Não muito longe de onde escrevo, fiz um passeio no vale do Rio Hudson, em 2000, quando Hillary estava em campanha pelo seu primeiro mandato no Senado. Boa parte do norte do estado, mais republicano, ao contrário da predominantemente democrata cidade de Nova York, a detestava. Vi, então, inúmeras placas anti-Hillary fincadas nos gramados. Mas a indústria anti-Clinton da direita populista, que começou no primeiro mandato de Bill, era orquestrada pelo establishment republicano ainda no controle das rédeas. Hoje, caciques do partido são ignorados pelo candidato à presidência. Quanto mais pedem moderação, mais são ridicularizados. As placas anti-Hillary nos gramados agora dizem “Hillary para prisão”. O New York Times publicou em vídeo uma montagem de gritos contra Hillary ouvidos nos comícios de Trump que fez amigos nova-iorquinos perguntarem se aquilo era Berlim nos anos 1930.

Observadores políticos acreditam que vivemos um momento típico da chamada Janela de Overton. A expressão foi cunhada num think tank conservador por Joseph Overton, morto em 2003. Overton propunha que uma ideia no discurso político precisava caber num espectro que pode começar no estágio impensável, passando por radical, aceitável, sensato, popular, até se transformar numa política concreta. Trump colocou em circulação tantas ideias até o ano passado impensáveis, que faz o último presidente republicano parecer um democrata. Esta mudança de fronteira vai ter consequências imprevisíveis, além do Partido Republicano que tanto contribuiu para o nascimento de seu Frankenstein. Os eleitores republicanos de menos de 34 anos que rejeitam Trump em massa este ano dificilmente voltarão para rejuvenescer o partido, dizem especialistas em demografia eleitoral.

À esquerda do Partido Democrata, assistimos à normalização de um progressismo charlatão, como o da candidata do Partido Verde, Jill Stein, médica diplomada em Harvard que continua a questionar vacinas. Ela conta com apoio de alguns famosos expoentes da turma artistintelectual, nossa velha conhecida.

Não há mais mediadores, seja na classe política, seja na mídia ou entre a elite esclarecida. Notando o sucesso de Barack Obama, o primeiro a usar a mídia digital para manter a imprensa à distância, Hillary cruza o país sem ser questionada em profundidade sobre assuntos que não cabem num tuíte, como o Tratado de Livre Comércio Trans-Pacífico. Ela agora tem o próprio podcast, onde continua, sem desafios, seu monólogo diante do eleitor.

Se Trump perder na urna – e alguns desconfiam, este é seu desejo secreto – ainda assim, pode cantar vitória. O trumpismo vai sobreviver ao voto de 8 de novembro.

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