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Os seguidores de demagogos acreditam que é possível uma mudança sem mudança

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2016 | 03h00

“A violência dos tímidos não é um paradoxo como possa parecer, já que a crueldade é uma tentação natural dos fracos.” (Reinhold Niebuhr, em Instrumentos do Fascismo-Nossa Classe Média Baixa, em 1937)

Quarenta e cinco anos depois de sua morte, Reinhold Niebuhr, o teólogo favorito de Barack Obama, volta a ser citado como um filósofo que entendeu como poucos os Estados Unidos. No ensaio sobre o fortalecimento do fascismo na Alemanha e na Itália, às portas da Segunda Guerra, Niebuhr previu as condições para a emergência de uma força política norte-americana semelhante. Uma emergência descarrilada, a seu ver, pelas políticas sociais de Franklin Roosevelt, mas também pelo tiro que matou o demagogo populista Huey Long, o cacique político da Louisiana, em 1935, semanas após ele anunciar sua candidatura a presidente.

Depois de acompanhar os comícios de Donald Trump, em vídeos streaming online, com todas as demonstrações de extremismo de seus seguidores, as suásticas, os símbolos da Ku Klux Klan, as exortações pelo assassinato de Hillary Clinton, é difícil não reler as palavras de Niebuhr como futurologia.

Ao contrário da classe trabalhadora, então mais forte e sindicalizada, Niebuhr escreveu, o “ressentimento social e a confusão política” da classe média baixa seriam aliados ideais dos demagogos fascistas. Sob o peso de um período de enorme mudança, “estão desorientados com a complexidade da civilização tecnológica”. Lembro que o ensaio foi publicado na revista The American Scholar, em 1937, após a Grande Depressão, mas parece descrever a grande recessão do mundo pós-crash de 2008. A consequência inevitável de um grande mergulho econômico, disse o teólogo, é um profundo ressentimento que luta para se articular.

Entram em cena demagogos como Hitler, lembra Niebuhr, oferecendo panaceias como a “liberdade da servidão aos juros”. Diante de um período de exacerbada insegurança econômica, seguidores de demagogos acreditam que é possível atingir mobilidade social sem alterar a concentração de propriedade e sistemas de impostos que aumentam a desigualdade. Ignorante da centralização da riqueza que o capitalismo favorece, este eleitorado “aspira a alguma forma correção da desigualdade” sem que o status quo seja perturbado. Ou seja, é a crença messiânica numa mudança sem mudança.

Mas Niebuhr não considera o pensamento mágico econômico o maior atrativo do fascista. Ele explora a insegurança garimpando o instinto racista que é geralmente menor entre “o aristocrata, o plutocrata ou o trabalhador”. O autoengano da superioridade racial é um bálsamo para a sensação de falta de agência econômica e social na classe média baixa, acreditava o teólogo. Não custa repetir, o texto foi escrito três décadas antes do fim da segregação que a Constituição norte-americana garantia.

Transcrevo aqui um trecho do ensaio de Niebuhr: “Como os judeus são proeminentes em finanças e na organização sindical, ainda que sua proeminência não seja desproporcional como alegam, eles se tornam alvos para este tipo de histeria”.

E transcrevo um trecho do discurso de Donald Trump na quinta-feira, em West Palm Beach, Flórida: “Hillary Clinton se reúne em segredo com banqueiros internacionais para tramar a destruição da soberania dos EUA e assim enriquecer estes poderes financeiros, seus amigos de grupos de interesse e seus financiadores.”

Mesmo levando em conta que o fundo do poço fica mais fundo a cada dia, comentaristas políticos jogaram a toalha: Trump tinha se aventurado pelo território do infame Protocolos dos Sábios do Sião. Trata-se de um documento fabricado na Rússia czarista para disseminar a ideia de uma conspiração judaica para dominar o mundo. O documento, simulando uma ata da reunião inexistente, se tornou uma peça poderosa de propaganda antissemita.

O demagogo esperto, previa Reinhold Niebuhr, haveria de capitalizar a angústia social estimulando a descrença em soluções coletivas, exacerbando o individualismo como saída e apontando bodes expiatórios. O país de 2016 não é o mesmo país descrito pelo teólogo em 1937. Mas a resistência imunológica ao fascismo, que ele considerava menor na Itália e na Alemanha de então, foi erodida nos Estados unidos após 2008.

Uma repórter da revista New Yorker se embrenhou recentemente num dos municípios mais fiéis a Donald Trump, no combalido Estado de West Virginia, para conhecer melhor os eleitores que Hillary Clinton chamou desastrosamente de deploráveis. A repórter Larissa MacFarquhar constatou o mesmo sentimento anti-imigrante visto em comícios, mas há um detalhe: a região praticamente não tem população imigrante. A oposição ao imigrante numa área enfrentando o acelerado declínio das minas de carvão traduz um ressentimento contra a globalização, contra a falta de continuidade e a ameaça de ter que seguir o capital para conseguir trabalho. É um sentimento compreensível. É também um sentimento que deve continuar sendo uma mina de votos para demagogos perigosos.

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