Eduardo Martino/Divulgação
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Tropicália, a arte do País em mostra americana

O primeiro cabeludo que o diretor Marcelo Machado admirou na vida não foi nenhum Rolling Stone, não foi um Beatle, não foi Jimi Hendrix. Nascido em Araraquara, no interior paulista, Machado viu na cabeleira de Caetano Veloso a rebeldia que revolucionaria a música brasileira e ecoaria até hoje em território nacional e internacional.

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

Os ecos de uma certa Tropicália, movimento difícil de explicar enquanto acontecia e ainda hoje impossível de ser definido em poucas palavras, chegaram até o interior paulista, viajaram o mundo e hoje desembarcam no Colorado nos Estados Unidos, mais precisamente no Telluride Film Festival.

Tropicália é o nome do documentário que Marcelo Machado dirigiu e que integra a mostra que vai até amanhã. Outro integrante é Transeunte, de Eryk Rocha. Filmes sobre música já são tradição no cinema nacional. Festivais de cinema são milhares no mundo. O que faz de Tropicália e Telluride dois eventos únicos é o fato de que são manifestações afetivas às duas artes.

É um documentário que não prima pelo didatismo, pela "coerência" cronológica nem mesmo pela linearidade em sua narrativa. Assim com o movimento cultural que homenageia, é uma geleia geral de imagens, referências, depoimentos e, claro, música. O Telluride tampouco prima pela regra que move muitos festivais do mundo: o culto às celebridades, a legitimação pela presença maciça da imprensa, as sessões anunciadas com antecedência. O evento mantém em segredo até o último momento (ou seja, até o dia em que começa) quais são os filmes concorrentes. "Nós estamos indo para lá hoje. E não sabemos quem vamos encontrar por lá. Podem tanto ser filmes do naipe de O Discurso do Rei, que fez sua première mundial lá no ano passado, quanto cineastas "desconhecidos" como nós", explicava Machado ao Estado antes de embarcar para o Colorado na quarta-feira.

Podem ser também filmes do estilo Cidade de Deus, o último filme brasileiro a integrar a programação do festival. A julgar pela opinião de Fernando Meirelles, produtor executivo de Tropicália, Telluride é um dos festivais mais interessantes do mundo: "É o melhor em que já fui. E já estive em muitos deles".

Ali, a imprensa quase não é permitida. Não há badalação também. É sobre filmes. Os diretores têm a obrigação de ficar lá pelos quatro dias do festival, pois a ideia é encontrar os colegas, assistir a filmes e conversar. É a mostra de maior prestígio nos EUA. Bombom fino para poucos e bons.

Para Machado e as produtoras Denise Gomes e Paula Consenza, que representam Tropicália, será também a prova dos nove. "Fiquei muito feliz que Tropicália tenha conseguido um espaço lá, mesmo ainda não estando acabado completamente", comenta Machado. "O filme contagia ao contar a história daquela turma que estava realmente mudando a forma de se fazer e entender a arte. Mexendo com as massas e com os pensadores. Chacoalhando a cristaleira. Ao ver o jovem Caetano ou o jovem Gil prontos para mudar o mundo é impossível não nos sentirmos tocados pela energia transformadora."

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