Tropas de choque artísticas zombam do establishment russo

Carregando sacos de alimentos roubados,Oleg Vorotnikov tira a bateria de seu celular antes de entrarna sede secreta de seu coletivo de arte underground naperiferia de Moscou. "É para impedir que a polícia nos grampeie", disse oestudante de arte de 29 anos, que fundou o coletivo Voina(guerra) em 2007 com outros artistas politicamente engajados. Em um país em que a oposição tradicional ao governo vemperdendo força devido à apatia pública e ao jornalismotelevisivo pró-Kremlin, esses artistas adotam uma abordagemdiferente: eles zombam do establishment. Quanto mais absurdassuas intervenções, melhor. Eles se debruçam sobre seus laptops em seu QG, uma garagemimprovisada, editando vídeos de sua performance mais recente:um chá das cinco improvisado numa delegacia de polícia. Por falta de cadeiras, eles se sentam sobre gaveteiros e umaparelho de TV. Máquinas fotográficas, filmadoras e livros depoesia estão espalhados pelo chão. "Sempre fazemos coisas que infringem as normas. Combinamosarte e política para realizar algo novo", disse Kotyonok, umajovem esbelta que leciona física numa universidade de Moscou edeu apenas seu apelido, que significa "gatinha". "As pessoas assistem ao que fazemos e se chocam." O Voina ficou conhecido no cenário dos bloggers russos comuma performance que fazia um comentário irônico sobre atransferência de poder entre o ex-presidente Vladimir Putin eseu sucessor, Dmitry Medvedev, qualificada por opositores comonão democrática. Um dia antes da eleição presidencial, em que Medvedev tevevitória arrasadora, cinco casais, incluindo uma mulher grávidaque deu à luz quatro dias mais tarde, tiraram a roupa emsegredo no Museu Biológico de Moscou. Diante de câmeras de vídeo do museu, eles fizeram sexo emfrente a uma placa que pedia cópulas em apoio ao "sucessorfilhote de urso" -- um trocadilho com o sobrenome de Medvedev,derivado da palavra "urso" em russo. EXPULSA DE CASA Dentro de 24 horas, os blogs que traziam fotos e vídeos daperformance chegaram ao primeiro lugar no ranking da Internetna Rússia. Alguns internautas chamaram os participantes de "malucos","comedores de merda" ou "animais". Um blogger sugeriu que elesdeveriam ser fuzilados. Quando a mãe da mulher grávida a viufazendo sexo na TV, a expulsou de casa. O Voina disse que eles tiveram que deixar sua sede antiga,sob pressão das autoridades, e que alguns membros ainda terãoque enfrentar o castigo da lei por suas atividades. O grupo é mais vulnerável à acusação de "vandalismo", quepode levar a penas curtas de prisão. No momento, porém, apenasum de seus integrantes está sendo processado por atirar gatosdurante uma performance do grupo. A arte engajada do Voina tira sua inspiração doconceitualismo de Moscou, movimento que começou nos anos 1970com performances que subvertiam a ideologia socialista. Emvista da natureza repressora do Estado soviético, esseshappenings tinham que ser realizados em segredo. Foi apenas quando o controle do Estado sobre as artesdiminuiu, durante as reformas da perestroika promovida porMikhail Gorbachev na década de 1980, que os artistas puderamlevar seus eventos à esfera pública. Em abril de 1991, membros de um grupo formado em torno doartista, teórico de arte e curador russo Anatoly Osmolovsky sedeitaram na Praça Vermelha formando com seus corpos nus apalavra "khui" (pênis, em russo). Os membros do Voina descrevem esse happening comoinspirador, mas acrescentam que seria impossível fazer algoassim hoje, na "Rússia autoritária" -- onde, não obstante, elesconquistaram o respeito de setores do cenário artístico maisconvencional. VELÓRIO NO METRÔ Em outro exemplo de arte performática, o grupo montou umamesa num vagão do metrô, colocou comida e vodca sobre ela erealizou um velório em homenagem ao poeta absurdista DmitryPrigov. Para comemorar o Dia Internacional do Trabalho, elesentraram num restaurante McDonald's e atiraram gatos vivoscontra os funcionários. A idéia, disseram, foi ajudar a fazeros trabalhadores saírem da rotina enfadonha do trabalho manual. Por trás de suas façanhas bizarras, os artistas que compõemo coletivo Voina têm uma agenda política séria. "Se as autoridades dizem 'estamos construindo um Estadoforte', o artista deve mostrar que não é o caso. Se elasdisserem 'estamos melhorando a vida da população', o artistadeve mostrar que isso é mentira", dise Vorotnikov durante ojantar, arrancando um pedaço do frango que tinha roubado de umsupermercado. Mas os artistas dizem que seu trabalho também é uma jornadade autodescoberta, para ver até onde podem empurrar seuspróprios limites como artistas e radicais. "Odiamos policiais, mas, se simplesmente os atacássemosdiretamente, eles nos colocariam na prisão. Então escondemosnosso ódio por trás de arte, para que não possam nos pegar epossamos alcançar nosso objetivo em menos tempo", disseKotyonok.

THOMAS PETER, REUTERS

25 de julho de 2008 | 10h36

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