Tropa na elite

Filme de José Padilha é ovacionado no Festival de Berlim. E conquista a imprensa internacional

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

 

Pega um, pega geral. José Padilha, ao lado dos atores Maria Ribeiro e Wagner Moura, fala de sua 'estratégia': "Mostrar o filme em Sundance e trazer para cá gerou mais curiosidade."           

 

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José Padilha veio, foi visto e venceu - os aplausos discretos para Tropa de Elite 2 no fim da sessão de imprensa, na sexta-feira pela manhã, viraram praticamente uma ovação quando o filme teve sua projeção oficial, à noite. No dia seguinte, Padilha e seus atores - Wagner Moura e Maria Padilha - não pararam de dar entrevistas. Nove entre dez jornalistas estrangeiros, consultados pelo repórter do Estado, consideraram Tropa 2 melhor que o 1.

"Do ponto de vista cinematográfico, não saberia dizer qual dos dois é o melhor, porque o primeiro se beneficiava do ineditismo, do impacto, mas o quadro político do segundo é mais complexo, os personagens mais nuançados", resumiu um jornalista da Croácia. Padilha diz que essa tem sido, de maneira geral, a leitura que a imprensa estrangeira faz do filme, e isso desde Sundance. Ele poderia ter participado da competição, mas não foi o medo de ver o Urso de Ouro - que ganhou por Tropa 1 - se esfumar que o levou a desistir. "A estratégia de mostrar o filme no Sundance e trazer para cá foi acertada. Isso gerou curiosidade, interesse. Tropa 2 está sendo vendido para todo o mundo", comemora o diretor.

Padilha fez um roteiro meio insano para chegar à Berlinale. Do Sundance voou para o Rio, ficou um ou dois dias em casa e pegou outro avião para a Suíça, antes de aterrissar na Alemanha. Em algum momento nesse périplo, pegou uma gripe. Ele estava péssimo no sábado à tarde. Mal apertou a mão dos jornalistas, cumprimentou à distância e manteve-se na extremidade da mesa, "para não transmitir o vírus (da gripe)." Ele admite que o olhar estrangeiro tem enriquecido o filme. "No Brasil, as pessoas têm uma percepção diferenciada do Tropa, e isso é normal. O público de Nova York que vai ver Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, também vê o filme com outros olhos, com mais conhecimento de causa. O público estrangeiro não se prende tanto nas especificidades. O que lhe importa é o drama."

Ele aceita a definição de thriller político para Tropa (1 e 2 - o 2, principalmente). A comparação com os filmes de Costa-Gavras - que atribuiu o Urso de Ouro a Tropa 1 - e também com os de Eli Petri, Francesco Rosi e Damiano Damiani é inevitável, mas Padilha, que conhece o cinema do diretor greco-francês, admite sua ignorância em relação aos italianos. E, de qualquer maneira, se houve um modelo para Tropa foi Os Bons Companheiros. "Scorsese mostra a Máfia de dentro, eu também quis mostrar a violência da polícia pelos olhos de alguém de dentro." Era absolutamente fundamental que o agora Capitão Nascimento, no segundo filme, tomasse consciência da corrupção do sistema que ajudou a estabelecer.

"Me interessava continuar tratando da violência, mas o tema agora é a corrupção. Se eu fizer um terceiro filme, vou falar mais ainda da corrupção. É o que dá universalidade a Tropa 2. Um jornalista da Áustria me disse que lá é a mesma coisa. Outro de Portugal corroborou essa visão." O repórter provoca - no Festival de Tiradentes, onde a Mostra Aurora revela o melhor do cinema de invenção que se faz no País, Tropa 2 foi tratado como "blockbuster", como se o fato de ser campeão de bilheterias desautorizasse a voltagem crítica do filme. "É curioso como certas pessoas são antidemocráticas. Elas desconfiam do povo, colocam-se num nível de superioridade. Se o povo gostou, não pode ser bom. As coisas são um pouco mais complicadas do que isso."

Um Capitão Nascimento mais consciente dá o tom do segundo filme. Entre o 1 e o 2, Wagner Moura fez Hamlet no teatro. Recitar o ser ou não ser de alguma forma fez com que Nascimento se tornasse mais reflexivo? "Não saberia dizer em detalhe de que forma, porque nunca pensei nisso, mas com certeza, sim." Ele sempre soube que, ao fazer o 2, Padilha não estaria simplesmente atendendo a uma expectativa de mercado. "Não é a cara dele. O José fez o filme como uma exigência interna, porque queria dizer alguma coisa."

A passagem por Sundance rendeu convites para Wagner Moura atuar no cinema norte-americano? "Tenho um agente nos EUA, mas é fora de cogitação, para mim, ir viver em Los Angeles. Quero continuar participando desse momento especial do cinema brasileiro, embora esteja aberto às proposições. Especificamente, o que me propuseram não me interessa fazer e, para aquilo que gostaria (de fazer), vamos ser práticos, eles já têm o Javier Bardem."

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