'Tropa de Elite' abre Festival do Rio 2007

Evento traz os filmes que estarão na mídia, provocarão admiração ou polêmica, nos próximos 12 meses

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 de setembro de 2019 | 18h31

Alfred Hitchcock preparava tanto seus filmes que dizia que a fase mais fácil era a rodagem - consistia em simplesmente passar o roteiro pela câmera. Enquanto fazia isso, ele já estava preocupado com a etapa seguinte - a recepção do público. Ilda Santiago encontra-se na mesma situação.  Assista ao trailer de 'Tropa de Elite'   Walkiria Barbosa e Ilda, como diretoras-executivas, representam o colegiado que dirige o Festival do Rio. São as duas que sobem ao palco nas noites de inauguração e encerramento, ou para acolher convidados especiais. Ilda, diretora-executiva de programação, diz que o Festival do Rio 2007, que começa na quinta-feira, 20, já está tão desenhado em sua cabeça que ela já está pensando no que poderá fazer em 2008. O festival decola sob o signo da polêmica, exibindo o longa brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha, que virou um caso de polícia por conta da pirataria que transformou o DVD espúrio do filme num fenômeno de vendas entre os camelôs do Rio. Isso, porém, é só metade da controvérsia associada a Tropa de Elite. O próprio tema, a reação da polícia à violência no Rio, com a formação de uma elite de assassinos, presta-se à discussão. O evento não decola sem certo estresse - o fato de Adriana Rattes, do colegiado do festival (e do Grupo Estação), ser hoje a secretária de Cultura do Rio inviabiliza a participação da prefeitura e ela representa metade do orçamento total de R$ 7 milhões. Mesmo com contenção de despesas, o Festival do Rio dá a volta por cima, ganha investidores (Furnas soma-se à Petrobras) e inicia uma maratona que vai exibir cerca de 370 filmes, distribuídos em 20 mostras. São Paulo também abriga uma mostra colossal - a de Leon Cakoff - e não há por que estimular rivalidades entre elas. A vantagem do Festival do Rio é que se realiza antes e possui a moldura da bela paisagem carioca. Não que a cosmopolita São Paulo não possua sua beleza própria, mas o Cristo, uma das sete maravilhas do mundo, está lá, de braços abertos, para acolher os filmes e diretores que darão a volta ao mundo, nas próximas duas semanas. Chama-se justamente Redentor o prêmio que o Festival do Rio atribui aos vencedores da Première Brasil, menina dos olhos de Ilda Santiago e Walkiria Barbosa. "É a grande vitrine da produção nacional", diz Ilda, sem modéstia. Olheiros dos maiores festivais do mundo vêm ao Rio para ver os filmes que estarão na mídia, provocarão admiração ou polêmica, nos próximos 12 meses. A exceção é O Passado, de Hector Babenco, reservado para a abertura da Mostra de São Paulo em outubro, em presença do astro Gael García Bernal - cuja estréia como diretor, Déficit, é um dos destaques da Première Latina.  Filmes, filmes, filmes. "Vamos trazer um apanhado dos grandes filmes que o público está esperando, mas temos uma diversidade muito grande de mostras, que vão de perspectivas e novas tendências até seções como Midnight Movies, a mais cult de todas, com bizarrices e transgressões para descolado nenhum botar defeito", explica Ilda Santiago. Este ano, o festival exibe os vencedores dos três maiores eventos de cinema do mundo, Cannes, Berlim e Veneza. O romeno 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o chinês O Casamento de Tuya e o chinês (de Taiwan) Se, Jie (Lust, Caution) são algumas das pérolas da seleção. Se você andava se perguntando sobre Milos Forman, tão sumido, o Rio exibe seu novo filme - As Sombras de Goya. Ken Loach, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Tsai Ming-liang, Kim Ki-duk, David Lynch, Woody Allen, Gus Van Sant, Werner Herzog, Michael Moore? Todos terão seus novos filmes em diferentes programas. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez? Mesmo sem a presença confirmada de nenhum dos dois - Tarantino havia se comprometido com a distribuidora Europa de vir ao Brasil, mas até agora não achou data em sua agenda -, Death Proof e Planet Terror prometem arrebentar junto à galera jovem; os mais velhos vão torcer o nariz, com certeza. Como todo ano, o Festival do Rio põe o foco numa cinematografia - desta vez, a chinesa, exibindo clássicos das gerações anteriores e promovendo a pré-estréia de A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, ícone da quinta geração. O cinema chinês já está na oitava e não pára de evoluir, apesar da burocracia e da censura que afligem os novos diretores (os demais têm apoio do Ocidente). Todo poder aos jovens, mas e os velhos? Manoel de Oliveira será representado por dois filmes - Belle Toujours, que a Mostra de São Paulo já exibiu no ano passado, e o novíssimo Cristóvão Colombo. Oliveira, nascido no Porto, em 1908, está quase batendo nos 100 anos. Perto dele, uma criança - nasceu em 1915, portanto tem "apenas" 92 anos -, Mario Monicelli mostra a força da comédia italiana, da qual é um dos máximos representantes, em Le Rose del Deserto. John Wayne ganha retrospectiva para assinalar o centenário de seu nascimento. A mostra Expectativa faz apostas - o coreano Zhang Lu (Desert Dream), o húngaro Arapad Bogdan (Happy New Life), o israelense Dror Shaul (Sweet Mud), o indiano Rajnesh Domalpalli (Vanaja), a francesa Julie Gavras (A Culpa É de Fidel), o americano Dan Cox (Running with Arnold, com o próprio Schwarzenegger), o inglês Teddy Hayes (That Samba Thing), a portuguesa Teresa Prata (Terra Sonâmbula) despontam como grandes talentos no circuito internacional. Portugal, muito justamente - o Festival do Rio 2007 vai prestigiar a produção lusófona, exibindo, entre outros filmes importantes, Portugal S.A., de Ruy Guerra, cineasta moçambicano que se fez brasileiro. De volta ao Brasil, A Via-Láctea, de Lina Chamie, e Mutum, de Sandra Kogut, são apostas certas na Première Brasil. Fora de concurso, o admirável documentário Jogo de Cena mostra que Eduardo Coutinho continua sendo o maior.

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