Tropa 2, o número 1

Filme de José Padilha já é o nacional mais visto da história do Brasil em todos os tempos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2010 | 00h00

Em outubro, durante um debate no Festival do Rio, Bruno Barreto minimizou o fato de haver dirigido o campeão de bilheterias do cinema brasileiro - título que Dona Flor e Seus Dois Maridos ostentava até terça-feira, ao ser desbancado por Tropa de Elite 2. Era uma honra, claro, mas também um carma. Barreto fez filmes de que gosta mais e que não agradaram tanto ao público. E ele achava que ser superado faria bem ao cinema brasileiro como um todo. Seu pai, Luiz Carlos Barreto, que produziu Dona Flor, dizia a mesma coisa. "Mal posso esperar para me livrar deste fardo."

Barretão estava sendo sincero, diz Marco Aurelio Marcondes, que bolou toda a estratégia de distribuição de Tropa 2. Depois que Tropa vazou antes do lançamento e virou o fenômeno de pirataria que todo mundo sabe, era questão de honra, ou de sobrevivência, evitar que a história se repetisse. Tropa 2 foi cercado de cuidados especiais para evitar a reprodução ilegal. O resultado é que o filme conseguiu chegar ao estratosférico número de 10.736.995 espectadores, superando os 10.735.524 de Dona Flor. O diretor José Padilha não tinha como meta bater o filme de Bruno Barreto. "Além de Dona Flor pertencer a outro momento do cinema brasileiro, ter outro perfil, é um filme do qual gosto muito. Sônia Braga alimentou as fantasias de todo o mundo, José Wilker é fantástico."

Já que bater Dona Flor não era a intenção de Padilha, qual seria ela, ou qual é? "Estou contente porque o Tropa 2 estabelece agora um só ranking de bilheteria do cinema brasileiro. Nos últimos anos, tínhamos Dona Flor e os filmes da Retomada. Agora, a Retomada consegue bater o recorde histórico, e isso é importante, mas minha meta, pode até parecer presunção, é mais pessoal. É chegar aos 11 milhões de espectadores, que os cálculos oficiais apontam como o número dos que viram Tropa 1 em cópias piratas." Sobre o fato de Tropa 2 ter sido um fracasso entre os marreteiros, Padilha tem sua interpretação. "O filme fala de corrupção. Denuncia a polícia e os políticos. O próprio público tomou consciência de que não ficaria bem ser contra a corrupção e, ao mesmo tempo, incentivar um ato criminoso como a pirataria." Ou seja, o público fez a sua parte.

Duas videntes. Padilha sabia que seu filme chegaria a tanto? Havia consultado uma vidente? Afinal, o repórter lembra, ele estava calmo demais na noite de lançamento de Tropa 2, quando o filme foi apresentado pela primeira vez em Paulínia. Naquela noite histórica, havia muita gente nervosa, mas não Padilha. Talvez seja a formação científica do diretor, mas ele estava singularmente calmo. Em retrospecto, ele se recorda do que disse ao repórter - que havia tomado todas as providências e que, a partir daquele momento, não poderia mais intervir. Os dados estavam lançados. Toda a sua energia e eficiência haviam sido empenhados na realização e no preparo da distribuição, com os amigos Marcondes e Marcos Prado (coprodutor). A partir daquele momento, o público tinha a palavra.

O repórter insiste - e a vidente? "Na verdade, tive duas", brinca o diretor. "Marco Aurelio e Cadu." Ele se refere a Marco Aurelio Marcondes e Cadu Rodrigues, diretor executivo da Globo Filmes. "Cadu foi o primeiro a me cantar a bola de que Tropa 2 era um filme para mais de 10 milhões de espectadores", ele conta. Marcondes lembra o que foi a batalha da distribuição do filme. Tudo foi cuidadosamente planejado. "Apliquei ao Tropa 2 tudo o que aprendi durante décadas de produção e distribuição de cinema." Foram pelo menos dez meses de cuidados especiais, que incluíram jamais liberar as cópias do filme mesmo para laboratórios, durante o processo de montagem e finalização. Tudo foi feito debaixo dos olhos dos donos - Padilha e Marcondes -, como o gado que se engorda. No processo de distribuição, as cópias, todas em película, foram numeradas, criptografadas e ainda lhes foi aplicado um GPS, para rastrear qualquer tentativa de desvio de rota.

Momento certo. Mas nada disso teria adiantado se o filme não tivesse chegado neste momento, atendendo - e satisfazendo - a uma necessidade do público. Padilha conta que tem sido parado na rua por espectadores que o identificam e comentam com ele não apenas o filme, mas a ocupação das favelas do Rio pelo Exército, no combate ao tráfico. Ele compara as operações acompanhadas ao vivo na TV a seu filme. "Quando eu venci o tráfico no Tropa 1..." O repórter brinca - "Ô, Padilha, o sucesso está te subindo à cabeça..." Ele volta ao racionalismo, diz que não. Faz críticas. Diz que os heróis dessa guerra não são como o Capitão Nascimento da ficção. Está preocupado com o desdobramento. Em artigo aqui mesmo no Estado, Padilha já advertiu sobre a permanência do Exército na favela. Disse que uma reforma da Segurança é fundamental, deve incluir policiais bem aparelhados e formados, capazes de resistir aos apelos da corrupção do tráfico.

O que mais o impressionou foi a facilidade com que a operação de ocupação militar das favelas pôs os criminosos a correr. "Havia aquela mística de que o crime organizado se havia constituído num Estado dentro do Estado. O planejamento foi fundamental, a execução também, mas o que vimos não foi exatamente o combate encarniçado que todo mundo temia." Enquanto saboreia o triunfo de Tropa 2 - o filme foi feito sem patrocínio e os investidores vão receber seu dinheiro de volta, com juros -, ele só espera que o filme não sinalize para o que vai ocorrer em seguida. Tropa 2 mostra como o próprio Bope se corrompe e substitui os criminosos na exploração do tráfico. Afinal, é muito dinheiro envolvido e existe uma demanda.

Essa parte é mais difícil. O público tem dado as costas à pirataria, mas o viciado e o policial pobre e malformado não vão fazer isso. A última observação de Padilha diz respeito ao poder do cinema. "Tropa 1 antecipou o que ia ocorrer, e depois dizem que o cinema não muda a história." São momentos de muita reflexão para Padilha e seus colaboradores. Refletem não apenas sobre o filme, mas sobre o País e o cinema em geral. Só que Padilha ainda não está satisfeito. Quer mais 273.105 espectadores para derrotar o recorde da pirataria. Isso, segundo ele, é mais importante do que bater a bem-amada Dona Flor.

COMO FICA A LISTA DOS 10 MAIS

1.Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro

Direção de José Padilha.

Estreia em outubro de 2010.

Público: 10. 736.995 (até terça)

2.Dona Flor eSeus Dois Maridos

Direção de Bruno Barreto.

Estreia: novembro de 1976.

Público: 10.735.524

3.A Dama do Lotação

Direção de Neville de Almeida. Estreia: abril de 1978.

Público: 6.509.1344.

4.Se Eu Fosse Você 2

Direção de Daniel Filho Estreia: janeiro de 2009. Público: 6.112.851

5.O Trapalhão nas minas do Rei Salomão

Direção de J.B. Tanko Estreia: agosto de 1977. Público: 5.786.226

6.Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia

Direção de Hector Babenco.

Estreia: novembro de 1977.

Público: 5.401.325

7.Os Dois Filhos de Francisco

Direção de Breno Silveira.

Estreia: agosto de 2005.

Público: 5.319.677

8.Os Saltimbancos Trapalhões.

Direção de J.B. Tanko.

Estreia: dezembro de 1981

Público: 5.218.478

9.Os Trapalhões na Guerra dos Planetas

Direção de Adriano Stuart.

Estreia: dezembro de 1978.

Público: 5.089.970

10.Os Trapalhões na Serra Pelada

Direção de J.B.Tanko.

Produção de J. B. Tanko.

Estreia: dezembro de 1982.

Público: 5.043.350

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